Ataque Violento em TI Guyraroká
Na noite do dia 27 de janeiro, a Terra Indígena (TI) Guyraroká, localizada em Caarapó, a cerca de 280 km de Campo Grande, foi palco de um episódio alarmante de violência. A Kuñangue Aty Guasu — Grande Assembleia das Mulheres Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul — publicou uma nota denunciando o que classificaram como um ‘ato de terror’ dirigido contra líderes da comunidade e suas famílias, um reflexo direto das tensões em torno das reivindicações territoriais dos indígenas.
De acordo com o relato, por volta das 22h58, homens armados invadiram a casa de uma liderança feminina da comunidade. Ao não encontrá-la, os agressores submeteram sua irmã a um brutal interrogatório, que incluiu tortura física e psicológica. A mulher foi amarrada, ameaçada de morte e teve uma arma apontada para sua boca enquanto exigiam informações sobre o paradeiro da liderança procurada. Apesar da pressão, ela se manteve firme e não revelou nada sobre o que sabia. Após a agressão, os homens fugiram, deixando a vítima ainda amarrada.
Um Contexto de Vulnerabilidade e Intimidação
A violência sofrida pela irmã da liderança é um reflexo da extrema vulnerabilidade em que se encontram os Kaiowá e Guarani, exacerbada pela falta de proteção estatal e pela morosidade do sistema de justiça em garantir os direitos territoriais. A nota da Kuñangue Aty Guasu enfatiza que o ataque não é apenas um crime isolado, mas uma tentativa de intimidar toda a comunidade, em especial as mulheres indígenas, que têm desempenhado um papel crucial nas lutas por seus direitos.
Testemunhas relataram que os criminosos estavam encapuzados, e um deles, ao perceber que a mulher não era o alvo, pediu que não a machucassem. Esse detalhe revela a dinâmica de opressão que tem se intensificado na região, onde as lideranças enfrentam ameaças diretas após terem participado de mobilizações em Brasília sobre direitos territoriais.
Intimidações e Medo na Comunidade
Além do ataque em Guyraroká, outra liderança indígena na Reserva de Dourados tem enfrentado visitas indesejadas de indivíduos encapuzados, que têm destruído câmeras de segurança e danificado a infraestrutura da casa. A indígena relatou que, em uma ocasião, um homem forte se apresentou como Testemunha de Jeová, mas seu comportamento não parecia compatível com essa identificação, gerando ainda mais insegurança. “Fiquei com medo, achando que poderiam entrar para me matar”, contou.
A relação entre os dois casos é clara: ambos os líderes participaram de reuniões em Brasília pouco antes das intimidações, o que leva a comunidade a acreditar que estão sendo alvo de retaliações orquestradas. “A qualquer momento podem nos matar. Nossa situação é desesperadora”, desabafou uma das lideranças afetadas.
Autodemarcação como Forma de Resistência
Diante da histórica omissão do Estado brasileiro na demarcação de terras indígenas, a comunidade de Guyraroká tem tomado medidas de autodemarcação como forma de defesa de seus direitos. Essa prática é considerada por eles uma resposta legítima às constantes violações e pressões do agronegócio e de grupos armados. A TI Guyraroká vive, portanto, sob um clima de tensão e insegurança, com o avanço das lavouras de monocultura e o uso indiscriminado de agrotóxicos que ameaçam suas terras e modos de vida.
Demandas por Justiça e Proteção
A Kuñangue Aty Guasu exige que as autoridades brasileiras tomem medidas imediatas para investigar e responsabilizar os agressores. A pressão recai sobre o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e outros órgãos de direitos humanos para que garantam a proteção das lideranças indígenas e de toda a comunidade de Guyraroká. A entidade ressalta que o que pedem não é mais do que o direito à demarcação de seu território e à segurança.
O episódio em Guyraroká é apenas uma parte de uma escalada de violência que afeta a existência física e cultural dos povos Guarani e Kaiowá. Com apenas 50 dos 11.400 hectares de terra originalmente declarados em 2011, a realidade é de constante stress e vulnerabilidade, aguardando uma solução que parece distante. Para eles, a luta por seus direitos continua e não haverá desistência diante das ameaças e da injustiça.
