Um Chamado à Ação em Defesa da Saúde e Direitos Territoriais
Na última sexta-feira, 30 de janeiro, as lideranças da Terra Indígena Yanomami divulgaram um minidocumentário que aborda as deliberações do VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. O evento, realizado em novembro de 2025 na comunidade Kori Yauopë, reuniu mais de 550 indígenas e culminou na elaboração da Carta de Surucucu, um importante documento que reflete as exigências da comunidade em relação às ações emergenciais do governo federal, especialmente no que diz respeito ao combate à malária e à proteção territorial.
Com uma duração de 19 minutos, o curta, disponível no YouTube, apresenta entrevistas com algumas das principais lideranças, incluindo Waihiri Hekurari, presidente da associação Urihi Yanomami, e Davi Kopenawa Dário Kopenawa, que atuam como vozes representativas do povo Yanomami. A produção também conta com a participação de Júlio Ye’kwana e Carlinha Lins, presidentes de associações locais.
O VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, além de ser um espaço de reflexão e organização, teve Waihiri Hekurari como anfitrião e se destacou pelo seu papel na luta contra o garimpo e na denúncia do descaso governamental durante a gestão anterior. “Nós, Yanomami e Ye’kwana, fizemos uma carta com a voz do nosso povo, uma flecha forte”, enfatiza Hekurari no filme, sublinhando a importância do documento.
Ele, que é conhecido internacionalmente como Júnior Hekurari, adotou um nome que liga sua identidade mais diretamente à sua cultura. O novo nome carrega significados profundos, como a palavra ‘guerreiro’ em português, refletindo sua luta e determinação.
O minidocumentário também traz vozes de lideranças Ye’kwana da Venezuela, que participaram do evento para estabelecer um intercâmbio e melhor compreender como a liderança Yanomami se organiza no Brasil. Esta troca de experiências é fundamental para fortalecer a solidariedade entre os povos indígenas da região.
Contexto Crítico: Emergência em Saúde Pública
O lançamento do filme ocorre em um momento delicado, já que o Brasil enfrenta uma Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) na Terra Indígena Yanomami. Em resposta à crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ações emergenciais para estruturar a saúde na região e desmantelar as operações de garimpo ilegal.
“O presidente decretou situação de emergência para salvar a população Yanomami, para expulsar os garimpeiros”, ressalta Hekurari, enquanto o filme apresenta imagens da destruição de equipamentos usados pelo garimpo ilegal em ações coordenadas pela Casa de Governo em Roraima. Apesar dos progressos observados desde a criação da Casa de Governo em fevereiro de 2024, as lideranças insistem que os esforços devem continuar, especialmente no combate à malária, uma questão ainda alarmante nas comunidades.
Davi Kopenawa, um respeitado xamã Yanomami, compartilha sua visão sobre a liderança do presidente Lula: “Na minha opinião, Lula é uma pessoa honesta. Eu o conheci e já sonhei com a alma dele. Ele nos abraçou e aprendeu a respeitar a nossa terra. Nós esperamos mais dele, ele não pode nos abandonar.”
Conforme relatado na Carta de Surucucu, foram registrados 14.615 casos de malária nos primeiros oito meses de 2025, o que é alarmante considerando que a população Yanomami é estimada em cerca de 30 mil indivíduos. Apesar de uma redução de 20% no número de casos em comparação ao ano anterior, as lideranças ressaltam a necessidade de um diagnóstico ágil e eficaz.
Demandas da Comunidade Yanomami na Carta de Surucucu
A Carta de Surucucu também aponta a necessidade de que a FUNAI avance na implementação das Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) e no apoio ao Plano de Vigilância Indígena da Terra Indígena Yanomami. As lideranças demandam agilidade nos inquéritos e julgamentos de garimpeiros e patrocinadores dessa prática ilegal, além da manutenção da Casa de Governo e ações de desintrusão.
Outro aspecto importante abordado no documento é a educação. Os Yanomami e Ye’kwana reivindicam uma educação diferenciada por meio de Territórios Etnoeducacionais, que garantam acesso a escolas bilíngues e interculturais. “Os jovens cobram a gente. Na minha comunidade, eles nos cobram por ajuda na educação, é o principal pedido”, destaca Júlio Ye’kwana, presidente da Seduume. Essa solicitação ressalta a urgência de fortalecer o sistema educacional nas comunidades indígenas.
