A Coragem da Pajé Nega Pataxó
Antes de ser brutalmente assassinada, a pajé Nega Pataxó compartilhou um canto poderoso com seus familiares, algo que agora ressoa como um presságio sombrio diante da tragédia que sucedeu sua vida. Nega tinha uma voz notável e, em 2023, durante uma visita à Aldeia Marakanã, no Rio de Janeiro, entoou palavras que agora ecoam em seu legado:
“Eu sou tupinambá guerreira, mas eu trabalho é para combater, eu entrego o meu peito à lança, nossa batalha temos que vencer.”
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Esses versos, repletos de coragem e determinação, se revelaram premonitórios. Nega Pataxó, líder histórica na luta pela demarcação dos territórios Pataxó Hã Hã Hãe na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, foi assassinada em um ataque covarde no dia 21 de janeiro de 2024, no sul da Bahia. Ao lado de seu irmão, o cacique Nailton Pataxó, que também foi atingido, sua imagem final é emblemática: seu corpo caído no campo, o maracá erguido, simbolizando resistência e luta.
Há mais de 40 anos, Nega se destacou na luta pela demarcação dos direitos territoriais do povo Pataxó. Sua morte aconteceu durante um ataque orquestrado por cerca de 200 fazendeiros do autodenominado Movimento Invasão Zero, que buscava retomar a Fazenda Inhuma, localizada em Potiraguá, na Bahia.
Impunidade e Luta por Justiça
O autor do disparo que resultou na morte de Nega, filho de um fazendeiro, foi preso, mas liberado após pagar fiança. Exames de balística confirmaram que a arma usada para o disparo pertencia a ele. Contudo, o caso ainda não foi julgado e as autoridades permanecem em silêncio, enquanto os líderes do movimento continuam impunes.
A repercussão da tragédia trouxe importantes figuras para o funeral de Nega, incluindo a ministra Sonia Guajajara e a deputada Celia Xakriaba. Esse apoio foi crucial, mas mesmo após intervenções, a região sul da Bahia continua a ser palco de sangue indígena. Nos últimos dois anos, ações foram feitas para combater as violências ligadas ao narcotráfico, mas a realidade permanece alarmante, com quase 40 pessoas brutalmente assassinadas, incluindo Nega e Lucas Kariri-Sapuyá, um cacique da região.
A Proximidade entre Milícias e Poder Policial
No sul da Bahia, a milícia ruralista Invasão Zero opera com impunidade. Em 21 de janeiro de 2024, o grupo convocou fazendeiros por meio de um grupo no WhatsApp para atacar a comunidade Pataxó Hã Hã Hãe. Meses depois, o Invasão Zero organizou um fórum onde um advogado ensinou como os fazendeiros poderiam agir sem deixar vestígios de suas ações, revelando a natureza criminosa do movimento.
O assassinato de Nega ocorreu em um contexto de crescente insegurança após a aprovação da lei 14.701, conhecida como Marco Temporal ou Lei do Genocídio Indígena. Essa legislação inviabiliza novas demarcações e abre as portas para a exploração de grandes corporações. Desde então, as comunidades indígenas enfrentam desafios ainda maiores.
Continuando a Luta em Memória de Nega
Desde a morte de Nega, seus familiares e aliados têm transformado a dor do luto em uma luta contra a impunidade, buscando justiça e visibilidade para a situação de violência que os povos indígenas enfrentam. A Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas, composta por mulheres da família de Nega, tem se mobilizado para manter viva sua memória e para exigir justiça.
As Tendas de Cuidado, criadas em homenagem a Nega, têm sido um espaço crucial de resistência e apoio, onde a espiritualidade e a política se entrelaçam. Essas tendas não apenas cuidam das mulheres, mas também servem como plataformas de protesto contra a violência e a injustiça.
A Memória de Nega e a Luta das Mulheres Indígenas
O legado de Nega Pataxó é um testemunho da luta incessante das mulheres indígenas pela terra, pela justiça e pela vida. Em momentos de dor, sua memória continua a inspirar a ação e a resistência. A luta pela justiça em seu nome se conecta a outras causas sociais e ambientais, evidenciando que a violência contra os povos indígenas é uma questão coletiva e urgente que deve ser enfrentada por toda a sociedade. Assim, Nega não é apenas uma vítima, mas um símbolo de resistência e luta.
