Ocupaçõe em Busca de Moradia
No mês de janeiro, indígenas da etnia Terena realizaram duas mobilizações em diferentes locais de Campo Grande, destacando a crescente demanda por habitação. Essas ações, que ocorreram em resposta ao alto custo dos aluguéis na capital, visam garantir que as famílias possam permanecer na área urbana, próxima aos seus locais de trabalho, estudo e serviços essenciais.
Embora tenham acontecido em regiões distintas, as ocupações chamaram a atenção por sua proximidade com rodovias federais, como as BRs 262 e 163. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) observa que essas iniciativas não refletem uma coordenação entre os grupos, nem representam uma mudança no comportamento da etnia.
Motivações por trás das Ocupações
De acordo com Dioni Alcântara Batista, coordenador regional da Funai em Campo Grande, a presença crescente de famílias Terena na cidade se relaciona a necessidades práticas. Muitos indígenas se mudam para a capital para acompanhar filhos que estão em universidades, buscar atendimento médico ou se inserir no mercado de trabalho. Contudo, o desafio financeiro dos aluguéis acaba tornando difícil a permanência dessas famílias na área urbana.
“Os preços dos aluguéis são exorbitantes, e as famílias precisam procurar alternativas para se manter na cidade”, explica Batista. A situação se agrava quando essas famílias deixam suas aldeias em busca de melhores condições de vida, apenas para se deparar com um mercado imobiliário hostil.
Um exemplo recente ocorreu na noite de segunda-feira (26), quando 201 famílias Terena ocuparam uma área ao lado da BR-262, na região do Indubrasil, de propriedade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). No local, os ocupantes começaram a limpeza da área e a construção de barracos, visando garantir um espaço de moradia.
Conflitos com a Polícia e Repercussões
Segundo o cacique Gideildo Jorge França Dias, a maioria das famílias atualmente reside em imóveis alugados, muitos dos quais precisam dividir para arcar com os custos mensais, que podem ultrapassar R$ 1.600. A escolha pela área de ocupação foi estratégica, devido à sua proximidade com o polo industrial, onde uma grande parte dos indígenas encontra trabalho.
No entanto, a ocupação foi marcada por tensões, culminando em confrontos com a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana. Registros feitos por moradores mostram agentes questionando a liderança do movimento e solicitando documentos de identificação.
Este não foi um caso isolado. No dia 8 de janeiro, outro grupo de indígenas Terena havia realizado uma mobilização em um terreno no final da Rua Dolores Duran, na região sul da cidade, próximo à BR-163. Cerca de 50 indígenas afirmaram que o local abriga um antigo cemitério indígena, onde familiares teriam sido sepultados há quase 100 anos. A reivindicação tem um forte vínculo com a herança cultural e histórica, além de buscar um espaço para moradia para as famílias que vivem na cidade.
O Papel da Funai e as Demandas Habitacionais
Durante a mobilização no Recanto das Paineiras, a Polícia Militar foi chamada em duas ocasiões para dispersar os manifestantes. A Funai declarou que está acompanhando a situação, mas enfatizou que qualquer análise técnica sobre a existência do cemitério deve ser solicitada à Brasília, o que ainda não ocorreu.
Batista esclarece que, apesar de os episódios envolverem indígenas da mesma etnia, são de aldeias diferentes, como Terenos, Sidrolândia e Miranda, e tendem a se organizar quando se estabelecem em Campo Grande. Ele acrescenta que a Funai não decide sobre as ocupações, tomando conhecimento delas apenas após os eventos acontecerem. A responsabilidade pela política habitacional recai sobre o município e o Estado.
Esses protestos no início do ano indicam um fenômeno crescente em Campo Grande: a luta de indígenas inseridos na vida urbana que buscam maneiras de se manter na cidade, ressaltando um problema habitacional que exige atenção e soluções urgentes.
