A Tragédia de Nega Pataxó e a Imunidade do Agronegócio
Antes de seu trágico assassinato, a pajé Nega Pataxó tinha se tornado um símbolo de resistência. Em cerimônias e rituais, ela entoava canções que pareciam prenunciar sua luta e sua perda. Nega era conhecida por sua voz potente e pela força de suas palavras, que reverberavam em comunidades indígenas e além. Um dos cantos que entoou em uma visita à Aldeia Marakanã, no Rio de Janeiro, ressoou profundamente: “Eu sou tupinambá guerreira, mas eu trabalho é para combater, eu entrego o meu peito à lança, nossa batalha temos que vencer.”
Infelizmente, essa batalha se tornaria ainda mais dolorosa quando, em 21 de janeiro de 2024, Nega foi assassinada por um jovem filho de fazendeiro na Bahia, no contexto de um ataque brutal promovido por cerca de 200 indivíduos do grupo autointitulado Movimento Invasão Zero. Ao lado de seu irmão, o cacique Nailton Pataxó, que também foi alvejado, Nega caiu no pasto, imortalizada em sua última pose, com um maracá em mãos e um braço estendido, simbolizando resistência e luta.
Uma Liderança que Lutava por Territórios e Justiça
Nega Pataxó Hã Hã Hãe era uma figura central na luta pela demarcação de terras indígenas na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu. Com mais de quatro décadas de ativismo, ela se destacava como uma referência para jovens e mulheres em sua comunidade. O ataque que lhe tirou a vida foi um reflexo da crescente violência contra os povos indígenas no Brasil. Apesar de o autor do disparo ter sido preso em flagrante, ele foi liberado após pagar fiança, e o crime permanece sem julgamento, deixando um rastro de impunidade.
A repercussão do assassinato de Nega trouxe à tona a importância da luta pelos direitos indígenas. Autoridades como a ministra Sonia Guajajara e a presidenta da Funai, Joenia Wapishana, marcaram presença em seu funeral, evidenciando a gravidade da situação enfrentada pelos povos indígenas no Brasil. Embora ações tenham sido implementadas para conter a violência, a situação no sul da Bahia continua crítica, marcada por um histórico de assassinatos e impunidade.
Um Contexto de Violência e Impunidade
O Movimento Invasão Zero, responsável pelo ataque que resultou na morte de Nega, continua operando livremente e ganha força. Em junho de 2025, realizaram um fórum que discutiu estratégias de atuação, como obter porte de armas e operar sem deixar rastros. Este cenário se agrava com a implementação da lei 14.701, conhecida como Marco Temporal, que restringe a demarcação de terras indígenas e abre espaço para a exploração econômica nos territórios indígenas.
O assassinato de Nega Pataxó não pode ser visto isoladamente. Ele se insere em um contexto mais amplo de violência sistemática contra defensores de direitos humanos e ambientalistas no Brasil. Segundo dados da Justiça Global e Terra de Direitos, entre 2023 e 2024, foram registrados 486 casos de violência contra defensores, com uma média de um ataque a cada 36 horas. O Brasil, nos últimos dez anos, foi o país que mais assassinou defensores da terra e do meio ambiente no mundo.
A Luta pela Justiça Continua
Nos dois anos que se seguiram ao assassinato de Nega, sua família e comunidade se mobilizaram para transformar a dor em luta. A Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas tem desempenhado um papel crucial nesse processo, mantendo viva a memória de Nega e pressionando por justiça. As Tendas de Cuidado, organizadas em sua memória, funcionam como espaços de resistência e acolhimento, unindo mulheres indígenas em torno da luta pela terra e pelos direitos humanos.
A história de Nega é um testemunho da força e resiliência das mulheres indígenas, que continuam a reivindicar seus direitos diante da violência e da opressão. Elas se organizam, não apenas para lamentar a perda, mas para garantir que a luta de Nega Pataxó não seja esquecida. A mensagem que ecoa entre elas é clara: “Não vamos parar.”
