Uma Luta por Justiça e Reconhecimento
No Brasil, a luta pela anistia política dos indígenas, apesar de ser uma questão histórica, continua sendo uma batalha silenciosa e, muitas vezes, ignorada. Tiuré Poti compartilha sua experiência como um refugiado político indígena no Canadá, revelando uma crônica pouco conhecida sobre a busca por justiça em um país que ainda enfrenta os resquícios de sua ditadura. No dia 28 de setembro de 2011, após deixar o exílio em Territórios Indígenas do norte, Tiuré ingressou na Comissão de Anistia, solicitando a tão almejada anistia política. Este caso, sendo o primeiro de um indígena a ser analisado, traz à tona questões que muitos preferem não discutir.
Tiuré expressa sua esperança de que a Comissão, uma instituição democrática, pudesse conduzir um trabalho sério de elucidação e pesquisa, promovendo a justiça de transição que tanto se almeja. Ele se pergunta, em um tom reflexivo, por que haveria uma falta de conciliação com os povos originários que foram historicamente oprimidos e seus territórios invadidos. Essa indagação se torna cada vez mais relevante em um contexto de 15 anos de tramitação de seu processo nos gabinetes governamentais em Brasília.
Comparando sua vivência a uma obra de Kafka, Tiuré descreve a frustração de ter ouvido, em seu primeiro julgamento, que “os indígenas não foram perseguidos durante a Ditadura”, uma afirmação feita pela então Vice-Presidente da Comissão da Anistia. Em paralelo, a Comissão comemorava uma década de atividades, mas o livro-relatório “Direito à Memória e à Verdade”, que documenta 475 casos de mortos e desaparecidos, não incluía uma única menção a indígenas, reforçando a invisibilidade histórica das suas lutas.
A narrativa continua a revelar como, apesar de evidências e testemunhos, o entendimento da sociedade brasileira em relação à violência sofrida pelos indígenas ainda permanecia distorcido. Após anos de dificuldades, em 2013, com a coleta de novas provas e após um irrefutável Relatório Figueiredo, houve uma mudança: a relatora do processo reconheceu, ainda que de forma limitada, a perseguição política contra os indígenas, mas apenas de 1982 a 1985.
Contudo, Tiuré ainda não se sentiu anistiado. Ele enfrentou a negação da relação entre suas ameaças e a perda do cargo na Funai, e a resistência que vivenciou na comunidade indígena Parkatêjê. Com a ascensão de um novo governo e o golpe que afastou Dilma Rousseff, Tiuré viu suas esperanças se desvanecerem novamente. Retornou ao exílio, mas não antes de apresentar um novo pedido de reconsideração em fevereiro de 2025, agora com a nova Comissão de Anistia sob o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania do governo Lula.
As expectativas de Tiuré se renovaram quando o novo vice-presidente admitiu um entendimento ampliado acerca das perseguições, reconhecendo as décadas de opressão e injustiça. Embora não tenha sido reconhecida a totalidade da perseguição que ele havia enfrentado, a audiência de julho de 2025 trouxe uma luz ao afirmar que a perda de seu cargo foi, de fato, uma consequência da perseguição política.
Ainda assim, uma ferida permanece aberta para Tiuré. Ele enfatiza que a anistia política deve incluir a reparação pelos danos causados pelo Estado, um aspecto muitas vezes negligenciado. Em última análise, a luta pela justiça não se encerra no reconhecimento, mas se concretiza na reparação que possibilita a reconstrução da dignidade e cidadania dos povos indígenas.
No último encontro que teve em Brasília, Tiuré se deparou com a frustração de ver que muitos dos anistiados estavam mortos, sendo reconhecidos postumamente. Com 76 anos, ele questiona: será que somente após sua morte ele será contemplado com o reconhecimento que deseja? Essa inquietação ecoa como um chamado à ação, reforçando que a luta por reparação e justiça deve ser feita com vida, enquanto ainda há tempo de honrar a memória e as conquistas dos que lutaram contra a opressão. A cobrança pela reparação ao Estado Brasileiro se faz urgente e necessária, enquanto Tiuré Poti segue sua jornada, determinado a trazer à luz as vozes que ainda anseiam por reconhecimento.
