A Aldeia Kaingang e o Significado de Por Fi Ga
A aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria em São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Região Metropolitana de Porto Alegre, é conhecida pelo nome de Por Fi Ga. Essa designação, que se traduz como “terra da tovaca” — onde “tovaca” é um pássaro que avisa os guerreiros sobre perigos na floresta e “gã” significa terra — carrega um significado profundo e histórico para a comunidade local.
Recentemente, a história da aldeia ganhou vida no documentário “Por Fi Ga: História e Tradições”, que teve sua primeira pré-estreia no último dia 15. O evento reuniu membros da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e autoridades públicas, todos interessados em celebrar essa importante narrativa cultural.
Documentação e Reconhecimento da Comunidade Kaingang
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, é o diretor do filme e da Comunique Produtora. Segundo ele, a criação do documentário foi motivada pelo desejo de registrar e valorizar a história da comunidade Kaingang. “Nosso objetivo foi documentar a trajetória da comunidade, buscando seu reconhecimento frente à sociedade não indígena”, declarou Hubert. O filme apresenta o processo de conquista do território, as razões pela vinda do povo para a região, além das adversidades enfrentadas para garantir seus direitos.
A produção, realizada em 2025 através de recursos da Lei Paulo Gustavo em São Leopoldo, recebeu apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Hubert enfatiza a importância de dar voz a todos os segmentos da comunidade, incluindo relatos de pessoas que vivenciaram a formação da aldeia, como o professor Dorvalino. A obra incluiu filmagens aéreas e registros de aspectos culturais, como culinária, música, pintura e ancestralidade, evidenciando a riqueza da cultura Kaingang.
Um Ano de Produção e Diversidade Cultural
O processo de criação do documentário levou cerca de um ano, e partes das falas foram traduzidas do idioma Kaingang, o que envolveu um trabalho cuidadoso de tradução e adaptação. Hubert acredita que a obra possui relevância nacional, uma vez que aborda a luta contra a invisibilidade dos povos indígenas, especialmente em um território historicamente colonizado pelos alemães. “Muitas pessoas não sabem da existência de uma aldeia indígena aqui”, completou.
Com uma duração de 20 minutos, o documentário está formatado para exibições em festivais. Após a pré-estreia, o filme será mostrado em escolas públicas e em eventos relacionados à Semana dos Povos Indígenas, previstos para março e abril. O diretor espera que o filme funcione como uma ferramenta educativa, capaz de reafirmar a identidade cultural Kaingang e apoiar a luta pela continuidade dessa rica herança.
A Inclusão de Gerações e a Preservação da Cultura
Elton Luiz Nascimento da Costa, ex-cacique e co-diretor do filme, compartilha que a proposta inicial era unir diferentes gerações da comunidade em torno da produção. “Quis incluir a juventude, mulheres e idosos. Apenas as crianças não puderam participar, mas apareceram em momentos em que o professor Narciso ensinou a língua materna, o Kaingang”, comentou. Ele destaca a importância das vozes mais velhas, que trazem histórias e detalhes importantes que podem ter se perdido com o tempo.
A formação da comunidade é situada nos primórdios dos anos 2000, embora muitas famílias tenham chegado antes. Costa recorda sua experiência fora da aldeia, marcada por racismo e bullying, e sua determinação em criar uma escola na comunidade para preparar as crianças para os desafios que enfrentariam. Atualmente, a Aldeia Por Fi Ga abriga entre 270 e 300 pessoas.
Vozes Femininas e o Papel da Cultura
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres, também faz parte do documentário. Ela ressalta a importância de registrar a história a partir das narrativas indígenas. “Estamos sempre na luta, trazendo nossas marcas, cores e grafismos. Buscamos a demarcação de nossos territórios, mas também nos espaços acadêmicos e políticos”, afirma Sueli.
Ela considera o documentário um marco que mostra a identidade contemporânea da comunidade. “Essas narrativas são essenciais, não apenas para nós, mas para toda a sociedade, para mostrar que seguimos aqui e resistindo”, argumenta Sueli. O documentário é considerado um dos raros registros sobre a comunidade Kaingang, enfatizando a visibilidade e a resistência cultural.
Recursos e Políticas Culturais
Durante o evento, Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, celebrou o alcance da Lei Paulo Gustavo e destacou a importância dos recursos para a cultura indígena e outros grupos marginalizados. “São Leopoldo recebeu quase R$ 2 milhões da Lei Paulo Gustavo, o que amplia as oportunidades para a comunidade artística, incluindo artistas indígenas e quilombolas”, afirmou.
Narrativas Indígenas e a Demarcação de Espaços
Sueli Khey Kaingang também participa de um novo projeto, intitulado “Mulheres Bioma”, que aborda a luta e a representatividade das mulheres indígenas em diferentes biomas do Brasil. Esta produção, dirigida por Shirley Krenak, cineasta do povo Krenak, está prevista para estrear internacionalmente na Alemanha. Khey destaca a importância de contar suas próprias histórias e a necessidade de visibilidade para a cultura indígena nas telas.
Ela conclui afirmando que o reconhecimento e a valorização da presença indígena nas cidades são fundamentais para romper estereótipos e garantir que as histórias e lutas dos povos indígenas sejam contadas de forma autêntica. “Estamos aqui, fazendo parte da sociedade, e nossa voz precisa ser ouvida”, finaliza.
