Uma História de Resistência e Identidade
O documentário “Por Fi Ga” traz à tona a rica história da aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, no Vale dos Sinos, uma região historicamente marcada pela colonização alemã. O termo ‘Por Fi Ga’, na língua Kaingang, significa ‘terra da tovaca’, referindo-se ao pássaro que avisa os guerreiros sobre perigos nas matas, simbolizando a conexão profunda da comunidade com seu território e sua cultura. Recentemente, o documentário teve sua pré-estreia, reunindo membros da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e representantes do governo.
Esta obra audiovisual destaca relatos, memórias e tradições que formam a identidade dos Kaingang em sua aldeia. Com novas sessões de pré-estreia programadas para 2026, a expectativa é de que o filme ganhe ainda mais visibilidade.
“Documentar é Reconhecer”
O diretor Gustavo Carniel Hubert, que também é jornalista e produtor audiovisual, explica que o filme surgiu da vontade de contar e valorizar a história da comunidade Kaingang. Em parceria com o ex-cacique, Elton Luiz Nascimento, Hubert buscou documentar a trajetória do povo, desde a conquista do território até os desafios enfrentados na luta por seus direitos. “Queríamos registrar as motivações que trouxeram essas famílias para a região e as barreiras que tiveram que transpor”, afirma Hubert.
A produção, realizada em 2025 por meio da Lei Paulo Gustavo e com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, procurou englobar diversas vozes da comunidade, incluindo a do professor Dorvalino, que contribuiu para a narrativa da formação da aldeia. O processo envolveu uma imersão na cultura local, com gravações que capturaram não apenas a paisagem, mas também práticas culturais como a culinária, músicas e rituais de ancestralidade. “Documentamos o preparo de pratos tradicionais e as histórias que são passadas de geração em geração, resgatando a essência da educação Kaingang”, acrescenta Hubert.
O Documentário como Instrumento de Educação
Com duração de 20 minutos, o filme foi estruturado para ser exibido em festivais e em escolas públicas. Após a pré-estreia, a previsão é que o documentário seja apresentado em eventos que celebram a Semana dos Povos Indígenas, em março e abril. “Esperamos que a obra sirva como uma ferramenta de educação e de valorização cultural, ajudando a preservar a identidade Kaingang e a fortalecer a luta pela continuidade de nossas tradições”, conclui Hubert.
Elton Luiz Nascimento, que também co-dirigiu o filme, enfatiza a importância de reunir diferentes gerações na narrativa. Ele destaca que a participação dos mais velhos é fundamental, pois eles trazem à tona detalhes e experiências que são essenciais para a história da aldeia. “A ideia era incluir a juventude, mulheres e idosos, proporcionando uma visão mais abrangente da nossa trajetória”, comenta.
A Voz das Mulheres Kaingang
A presença de Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista, também se destaca no documentário. Ela ressalta a importância de registrar as histórias a partir das perspectivas indígenas. “Estamos sempre lutando para trazer nossas cores e tradições para o espaço público, buscando reconhecimento e demarcação não apenas de nossos territórios, mas também na educação e na política”, afirma Sueli.
Ela vê o documentário como um marco que não apenas representa a comunidade Kaingang, mas também contribui para a visibilidade das lutas indígenas em São Leopoldo. “Essa é uma oportunidade não apenas para nós, mas para a sociedade como um todo se conscientizar sobre a nossa presença e resistência”, acrescenta.
Políticas Culturais e Oportunidades para a Comunidade
A Chefe de Divisão do Escritório do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, Patrícia Affonso, também marcou presença no evento de pré-estreia e destacou a importância da Lei Paulo Gustavo. “Essa legislação é um avanço significativo para a cultura, especialmente em um momento em que o Ministério da Cultura enfrentou grandes desafios. A comunidade artística de São Leopoldo se beneficiou de quase R$ 2 milhões através da lei, o que poderá abrir novas oportunidades para artistas locais, incluindo indígenas e quilombolas”, enfatiza.
Pela Política Nacional Aldir Blanc, São Leopoldo recebeu recursos adicionais, o que demonstra o comprometimento com o fortalecimento cultural na região. Affonso também mencionou o impacto das enchentes de 2024, ressaltando a necessidade de reconstrução e valorização cultural neste processo.
Uma Nova Era para as Narrativas Indígenas
Sueli Khey Kaingang, além de sua participação no documentário “Por Fi Ga”, está envolvida em uma nova produção, “Mulheres Bioma”, que aborda a luta das mulheres indígenas no Brasil. Ela acredita que a representação e a autonomia são fundamentais para que as vozes indígenas sejam ouvidas. “Estamos rompendo barreiras e levando nossas histórias para fora”, afirma. A estreia internacional do filme está prevista para junho ou julho na Alemanha. “É vital que nossa história seja contada por nós mesmos, e o documentário é um passo importante nessa direção”, conclui.
