Uma Narrativa Sobre Cultura e Resistência
Localizada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, a aldeia Kaingang, conhecida como Por Fi Ga, é um espaço que ressoa com histórias e tradições. O nome, que se traduz como ‘terra da tovaca’, carrega em si uma rica memória cultural. A tovaca, um pássaro que avisa os guerreiros sobre a presença de predadores na mata, simboliza a conexão da comunidade com a natureza e sua ancestralidade.
O documentário “Por Fi Ga: História e Tradições” estreou com uma pré-estreia no dia 15, reunindo membros da aldeia, a equipe de produção e autoridades locais. Com relatos e práticas culturais, a obra busca preservar a identidade Kaingang, apresentando um mosaico de vozes e experiências que refletem a vida na aldeia.
Um Registro Importante
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e diretor do documentário, salienta que o projeto nasceu da vontade de valorizar a história da comunidade. Ele destaca a colaboração com Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia, para criar um registro que reconheça a trajetória e as conquistas do povo Kaingang. “Queremos que a sociedade não indígena compreenda a importância de nosso território e a luta para garantir nossos direitos”, afirma Hubert.
A produção, que teve apoio da Lei Paulo Gustavo, mobilizou a comunidade ao longo de um ano. As filmagens capturaram a essência da cultura Kaingang, incluindo a culinária, música e tradições que são passadas de geração em geração. “É um compilado de valores e princípios que formam nossa educação”, diz Hubert.
A Voz da Comunidade
Elton Luiz Nascimento, também co-diretor do filme, enfatiza a importância da representatividade de diferentes gerações na narrativa. A inclusão de jovens, mulheres e anciãos foi fundamental para mostrar a diversidade do povo Kaingang. Ele acredita que compartilhar as histórias dos mais velhos é crucial para a continuidade da memória coletiva.
Enquanto isso, Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista, compartilha sua visão sobre a importância do documentário. Ela aponta que é essencial registrar as histórias através das próprias vozes indígenas. “Estamos sempre lutando para mostrar nossa presença e resistência. Este filme é um marco que traz à tona nossa identidade, tanto para nós quanto para a sociedade”, afirma.
A Importância das Políticas Culturais
O evento contou com a presença de Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura, que elogiou a conquista da Lei Paulo Gustavo e seu impacto na cultura local. “São Leopoldo recebeu quase R$ 2 milhões da lei, que possibilitou a realização de projetos como este. É fundamental apoiar iniciativas que promovam a cultura indígena”, destacou.
Além do documentário, Sueli Khey Kaingang está envolvida em outra produção cinematográfica dirigida por mulheres indígenas, que busca abordar a luta e a representatividade de seu povo. Ela ressalta a importância de dar voz às narrativas indígenas, que historicamente foram contadas por outras pessoas.
Desafios e Conquistas Urbanas
Apesar da colonização alemã que caracteriza a região, Sueli Khey Kaingang destaca o desafio da invisibilidade da presença indígena nas cidades. “Quando falamos sobre povos indígenas, muitos pensam apenas em florestas e artesanato, mas esquecem que também estamos nas cidades, nas universidades e no mercado de trabalho”, observa.
Para Khey Kaingang, reconhecer essa presença é crucial para desmantelar estereótipos e permitir uma inclusão real. “Estamos aqui, resistindo e lutando. É importante mostrar que somos parte da sociedade, mesmo enfrentando desafios diários”, conclui.
