Desafios e Preconceito nas Escolas
“Muita terra para pouco índio”. “Índio não produz nada”. Essas são algumas das frases que Glycya Makuxi, de 31 anos, enfrentou em seu trabalho como professora de História na zona rural de Cantá, Roraima. Surpreendentemente, os comentários preconceituosos não partiram dos alunos, que ainda estão em formação, mas de seus próprios colegas professores.
Essas falas racistas surgiram durante um debate sobre a aprovação da tese do marco temporal pelo Senado, em dezembro de 2025. Glycya já havia enfrentado situações semelhantes anteriormente. Em uma publicação que se tornou viral nas redes sociais, ela enfatizou: “Quando nem os professores apoiam os povos indígenas, perdemos enquanto sociedade”.
A Luta Cotidiana de uma Professora Indígena
Glycya, que também é psicóloga e comunicadora, destaca sua abordagem paciente ao lidar com os comentários preconceituosos, sempre buscando contra-argumentar de forma respeitosa. No entanto, a professora do Povo Macuxi sente-se isolada em seu ambiente de trabalho. “Falta-me liberdade para ser quem sou culturalmente. Não tenho colegas com quem compartilhar essa experiência. A atuação de indígenas em escolas não indígenas é solitária”, relata.
Além das dificuldades nas relações interpessoais, Glycya enfrenta obstáculos ao abordar temas relacionados aos povos originários em sala de aula. Embora tenha intenção de formalizar uma denúncia, teme represálias e, por isso, está reunindo evidências para enviar à ouvidoria local. “Evito ir à sala dos professores durante o intervalo. Quando preciso, converso apenas com a merendeira ou o assistente de alunos, evitando o grupo principal, pois isso me gera estresse”, explica.
O Contexto Educacional e Cultural de Cantá
A reportagem do #Colabora buscou esclarecimentos da Secretaria de Educação de Cantá sobre medidas contra o racismo e preconceito nas escolas do município, mas não obteve retorno até o fechamento deste artigo.
Desde que foi aprovada em concurso público em abril do ano passado, Glycya tem lecionado para oito turmas em duas escolas diferentes. Antes disso, sua experiência se limitava a escolas indígenas. “Meus pais também são professores e lideranças”, relembra, tecendo a conexão entre sua trajetória e a educação.
“Quando cheguei, ninguém se identificava como indígena. Agora, ao final do ano, já há alunos interessados em participar de projetos sobre identidade”, conta. Ao perceber o receio dos alunos em se reconhecerem como indígenas, a professora começou a abordar temas relacionados a esses povos de forma mais ampla.
A Temática Indígena em Debate
Glycya notou que, ao discutir questões ambientais e indígenas, como as mudanças climáticas e a COP30, frequentemente enfrenta olhares de desaprovação. “Mesmo quando os alunos compreendem o conteúdo, há colegas que o desconsideram como irrelevante”, lamenta.
Ela atribui parte desses desafios ao contexto de Cantá e à forte influência do agronegócio na região. “Aqui, há poucas comunidades indígenas. Ao nosso redor, o agronegócio predomina. Inclusive, onde resido, há uma plantação de soja”, acrescenta.
Diferenças entre Escolas Indígenas e Não Indígenas
Glycya destaca as diferenças entre o tempo e a metodologia de ensino em escolas indígenas e não indígenas. “Na escola indígena, não preciso me provar constantemente”, afirma. Essa percepção evidencia como as adversidades em ambientes educacionais distintos impactam tanto alunos quanto professores.
Entretanto, isso não desestimula a professora. Ela acredita que é fundamental que os alunos, sejam indígenas ou não, tenham acesso a diferentes perspectivas sobre a história e cultura dos povos originários. “Estou me dedicando a incluir conteúdos que foram ignorados anteriormente, explicando como aconteceu a invasão durante o período colonial. Agora, os alunos entendem que foi uma conquista ilegítima”, ressalta.
Desafios nas Políticas Públicas
Consultamos o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério da Educação sobre iniciativas para apoiar a inclusão de professores indígenas em escolas não indígenas. O MPI não respondeu. Por outro lado, o MEC informou que, atualmente, não há políticas específicas para facilitar essa inclusão.
A nota do MEC ressalta que o foco é fortalecer a educação escolar indígena e garantir a existência de escolas para esses povos. Além disso, menciona esforços para melhorar a formação superior de indígenas, destacando ações afirmativas que ampliam o acesso a cursos de graduação nas Instituições Federais.
Por fim, o MEC reconhece a persistência do racismo e preconceito nas escolas, um resquício da colonização presente na sociedade. A resposta enfatiza a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, conforme a Lei nº 11.645/2008, e orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para abordar essas questões de maneira crítica e antirracista.
