Uma Jornada Cultural e Histórica
O documentário “Por Fi Ga” é uma janela para a rica história da aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Essa região, marcada pela colonização alemã, abriga a aldeia que leva o nome que, em Kaingang, significa “terra da tovaca”. A tovaca é um pássaro que, segundo a tradição, avisa os guerreiros sobre as feras da mata, simbolizando um elo profundo com a natureza e a cultura local. O documentário, intitulado “Por Fi Ga: História e Tradições”, foi lançado em uma pré-estreia no dia 15 de fevereiro, reunindo membros da aldeia, criadores do projeto, apoiadores e autoridades locais.
A produção traz à tona relatos, práticas e referências culturais que são fundamentais para a identidade Kaingang. Outras exibições do documentário estão programadas para 2026, com datas ainda a serem confirmadas.
Documentar para Reconhecer
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, é o diretor do filme e da Comunique Produtora. Ele compartilha que o documentário surgiu do desejo de registrar e valorizar a história da comunidade Kaingang. “Trabalhei em parceria com Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia, para documentar a trajetória da comunidade, buscando seu reconhecimento na sociedade não indígena. Abordamos como foi a luta pela conquista do território e os desafios enfrentados para garantir seus direitos”, explica Hubert.
A obra foi realizada em 2025, através de um edital da Lei Paulo Gustavo, com o suporte da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo. O diretor destaca que uma das metas foi reunir as diversas vozes da aldeia, incluindo figuras como o professor Dorvalino, que contribuíram para a formação da comunidade.
O processo de produção envolveu um estreito diálogo com a comunidade, roteirização e gravações que capturaram não apenas imagens do cotidiano da aldeia, mas também aspectos culturais como culinária, música, pintura e ancestralidade. “Tivemos a chance de acompanhar o preparo do bolo na cinza, ouvir histórias contadas por anciãs, registrar cantos, danças e outras expressões simbólicas”, detalha Hubert, que enfatiza que a obra resulta em um importante registro dos valores e princípios Kaingang.
O Papel das Novas Gerações
Elton Luiz Nascimento da Costa, co-diretor e ex-cacique, relata que um dos objetivos principais foi unir diferentes gerações da comunidade. “Quisemos incluir jovens, mulheres e idosos, criando um espaço onde todos pudessem contar suas histórias”, diz. Embora as crianças não tenham participado ativamente, elas apareceram em momentos de aprendizado da língua Kaingang. Costa acredita que essa abordagem foi bem-sucedida e vital para o projeto.
Ele também compartilha suas experiências de vida, lembrando o racismo e a violência linguística vivenciados durante sua educação fora da aldeia. “Quando estudava, enfrentava bullying por errar palavras. Isso me levou a perceber que era essencial ter educação dentro da comunidade, para que nossos jovens estivessem preparados para o futuro e pudessem lutar por seus sonhos”, reflete.
A Voz das Mulheres Kaingang
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista, destaca a importância de documentar a história por meio das narrativas indígenas. “Estamos sempre lutando, levando nossas artes e tradições a diversos espaços”, afirma, ressaltando a relevância do documentário como um marco histórico. “Essas narrativas mostrarão quem somos e nossa luta pela demarcação de nossos direitos”, complementa.
A representante das mulheres indígenas do Bioma Pampa enfatiza a necessidade de visibilidade e reconhecimento da presença indígena mesmo em áreas urbanas. “É crucial que a sociedade reconheça que estamos aqui, vivendo e contribuindo”, declara Khey Kaingang.
Impacto Cultural da Lei Paulo Gustavo
A Chefe de Divisão do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, Patrícia Affonso, esteve presente no evento de pré-estreia e elogiou o impacto positivo da Lei Paulo Gustavo, que proporcionou quase R$ 2 milhões para São Leopoldo. “Essa lei é uma conquista, especialmente em um momento em que o Ministério da Cultura enfrentava dificuldades. É fundamental apoiar a cultura indígena e promover a diversidade”, afirmou.
Com a aproximação da Semana dos Povos Indígenas, o documentário “Por Fi Ga” deverá ser exibido em escolas e eventos, reforçando seu papel como uma ferramenta educacional e de afirmação cultural. “Espero que este filme ajude a fortalecer nossa identidade e a luta pela preservação da cultura Kaingang”, conclui Hubert.
