Documentário Retrata a Identidade Kaingang
A aldeia Kaingang, localizada no bairro Feitoria em São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Região Metropolitana de Porto Alegre, ganha destaque no documentário intitulado “Por Fi Ga: História e Tradições”. O nome Por Fi Ga remete a uma rica simbologia: em Kaingang, “por fi” significa tovaca, um pássaro que alerta os guerreiros sobre perigos na floresta, enquanto “gã” representa terra. Assim, a expressão se traduz como “terra da tovaca”, refletindo a memória e a história da comunidade.
O documentário estreou no dia 15 de setembro de 2023, em uma pré-estreia que reuniu membros da aldeia, a equipe de produção e representantes do poder público. A obra tem como objetivo registrar relatos, memórias e práticas que constituem a identidade cultural Kaingang.
O filme foi idealizado pelo jornalista e produtor audiovisual Gustavo Carniel Hubert, que ao lado do ex-cacique Elton Luiz Nascimento, buscou documentar a trajetória e o reconhecimento do povo Kaingang. “Nosso objetivo foi registrar a história da comunidade, desde a conquista do território até as dificuldades enfrentadas para garantir seus direitos”, explica Hubert.
Uma Produção Coletiva
A produção, realizada em 2025 por meio da Lei Paulo Gustavo, contou com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Hubert destacou a importância de incluir uma diversidade de vozes na narrativa, ouvindo pessoas que acompanharam a formação da aldeia, como o professor Dorvalino. O processo envolveu a aproximação com a comunidade, filmagens de aspectos culturais e a coleta de depoimentos significativos.
O documentário, com duração de 20 minutos, está sendo preparado para exibições em festivais e em escolas públicas. Hubert espera que a obra se torne uma ferramenta educativa e ajude a fortalecer a luta pela preservação da cultura Kaingang.
Unindo Gerações e Histórias
Elton Luiz Nascimento da Costa, co-diretor do filme, comenta que a iniciativa buscou unir diferentes gerações da aldeia. “A ideia era incluir a juventude, as mulheres e os idosos. As crianças também foram representadas, especialmente quando falamos sobre a língua Kaingang”, enfatiza. Ele reforça que a história da aldeia deve ser contada pelos mais velhos, que possuem conhecimentos e experiências únicas.
Costa também recorda momentos desafiadores de sua infância, incluindo experiências de racismo e bullying, que o motivaram a lutar por uma educação que valorizasse a cultura Kaingang. Atualmente, a aldeia abriga entre 270 e 300 pessoas, que buscam manter viva sua identidade e suas tradições.
A Voz das Mulheres Kaingang
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista, é uma presença forte no documentário, ressaltando a importância de contar a história pelas vozes indígenas. “Estamos sempre na luta, trazendo nossas marcas e artesanatos para os espaços. É crucial que nossa história seja visibilizada”, diz Sueli. Para ela, o documentário é um marco que representa a resistência e a identidade do povo Kaingang.
Presente no evento da pré-estreia, Patrícia Affonso, do Ministério da Cultura, destacou o potencial da Lei Paulo Gustavo em oferecer recursos para a cultura indígena e periférica. A legislação tem sido uma ferramenta vital para promover a inclusão e apoiar artistas locais.
Narrativas e Representatividade Indígena
Além de sua participação em “Por Fi Ga”, Sueli Khey Kaingang também integra um projeto de filme sobre mulheres indígenas, enfatizando a necessidade de quebrar barreiras e aumentar a representatividade. A obra, dirigida por Shirley Krenak, buscará levar a luta das mulheres indígenas para palcos internacionais.
“Hoje estamos aqui para contar a nossa história. É fundamental que nossas vozes sejam ouvidas e que possamos mostrar nossa realidade diversa”, conclui Sueli Khey.
O documentário se configura como uma ferramenta poderosa na luta por reconhecimento, evidenciando a importância da presença indígena em contextos urbanos e combatendo a invisibilidade que ainda persiste nas sociedades contemporâneas.
