Uma História de Memória e Cultura
A aldeia Kaingang, conhecida como Por Fi Ga, está situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Este território, fortemente influenciado pela colonização alemã, carrega um nome que remete a elementos essenciais da cultura Kaingang. Em sua língua, “por fi” significa ‘tovaca’, um pássaro que serve de mensageiro para os guerreiros da comunidade, enquanto “gã” se refere a ‘terra’. Assim, a expressão Por Fi Ga é traduzida como “terra da tovaca”, selando um laço profundo com a história e as memórias do seu povo.
O documentário intitulado “Por Fi Ga: História e Tradições” foi apresentado em sua primeira pré-estreia no dia 15 de setembro, em um evento que reuniu membros da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e autoridades do município. A obra, que visa expor relatos e práticas culturais que definem a identidade Kaingang na região, pretende realizar outras sessões de pré-estreia ao longo de 2026, com datas a serem confirmadas.
“Documentar para Reconhecer”
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, é o diretor do documentário e fez sua produção em colaboração com Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia. Segundo Hubert, a proposta do filme surgiu da necessidade de registrar e dar visibilidade à história da comunidade, enfatizando a luta pelo reconhecimento dos direitos do povo Kaingang. “O documentário detalha o caminho até a conquista do território, as razões que trouxeram este povo à região e os desafios enfrentados para garantir seus direitos”, explica.
A produção foi viabilizada em 2025 por meio de um edital da Lei Paulo Gustavo, com suporte da Secretaria Municipal de Cultura. Hubert destaca ainda a importância de incluir diversas vozes no filme, como a do professor Dorvalino, que acompanhou de perto a formação da aldeia. O processo de produção envolveu um forte vínculo com a comunidade, abrangendo a roteirização, gravações e aspectos culturais, como culinária, música e tradições.
Um Ano de Produção e Autenticidade
O desenvolvimento do documentário tomou cerca de um ano, com a inclusão de falas em Kaingang, o que exigiu um processo cuidadoso de tradução. Hubert salienta que a relevância da obra se estende a nível nacional, já que ela aborda a luta contra a invisibilidade dos povos indígenas, especialmente em um contexto de forte colonização, onde muitas pessoas desconhecem a existência de uma aldeia indígena na região.
Com duração de 20 minutos, o documentário está formatado para ser exibido em festivais, além de ser apresentado em escolas públicas e outros eventos programados para março e abril, em proximidade da Semana dos Povos Indígenas. Hubert espera que o filme sirva como uma ferramenta educativa, promovendo a afirmação e preservação da cultura Kaingang.
Vozes da Comunidade e Intergeracionalidade
Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia e co-diretor do documentário, enfatiza a proposta de unir diferentes gerações e grupos da comunidade na produção do filme. “Foi importante incluir a juventude, mulheres e idosos no processo. As crianças também participaram, mesmo que indiretamente, quando o professor Narciso compartilhou métodos de ensino da língua Kaingang”, relata. Nascimento considera que a participação dos mais velhos é crucial para transmitir detalhes da história que ele mesmo não vivenciou, lembrando que a formação da comunidade ocorreu no início dos anos 2000.
Ele também compartilha sua experiência pessoal de discriminação e bullying por parte de colegas em instituições não indígenas, levando-o a acreditar na necessidade de educação na comunidade. “As crianças precisam ser preparadas para enfrentar os desafios que encontrarão e assim poderão realizar seus sonhos”, afirma, destacando que atualmente entre 270 e 300 pessoas residem na aldeia Por Fi Ga.
As Mulheres Kaingang em Destaque
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres, é uma das vozes presentes no documentário. Ela ressalta a importância de contar a história de acordo com as narrativas indígenas. “Estamos sempre lutando para que nossas marcas, cores e artesanatos sejam reconhecidos. Essa produção é significativa, pois mostra que estamos aqui e que continuamos a resistir”, diz Sueli. Ela acredita que o documentário é um marco histórico, não apenas para a comunidade, mas para toda a sociedade, pois reforça a presença e a luta dos povos indígenas.
Apoio Governamental e Futuro Cultural
Durante a pré-estreia, Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura, celebrou a importância da Lei Paulo Gustavo e os recursos que possibilitaram a realização do documentário. Ela destacou a relevância das cotas destinadas a comunidades indígenas e periferias, elogiando o trabalho da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo. O município recebeu quase R$ 2 milhões da Lei Paulo Gustavo, que será utilizado para abrir novas oportunidades artísticas em 2026.
Com a participação de Sueli Khey Kaingang em um novo projeto, “Mulheres Bioma”, a ênfase na representatividade feminina indígena continua. Neste filme, dirigido por mulheres indígenas, a luta e a força das mulheres em diferentes biomas do Brasil são evidenciadas, com estreia prevista para o próximo semestre na Alemanha. Sueli destaca a importância de trazer suas vozes para as telas, reafirmando que a história dos povos indígenas deve ser contada por eles mesmos, uma reivindicação valiosa em tempos de luta por reconhecimento e direitos.
