A história da aldeia Kaingang em São Leopoldo
A aldeia Kaingang, localizada no bairro Feitoria em São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Região Metropolitana de Porto Alegre, traz consigo um nome que carrega significados profundos. Por Fi Ga, que se traduz como ‘terra da tovaca’, é uma referência ao pássaro que comunica os guerreiros sobre os perigos da floresta. Recentemente, a história dessa comunidade indígena ganhou destaque com a estreia do documentário “Por Fi Ga: História e Tradições”, realizado em um evento que ocorreu no dia 15 de outubro. O encontro contou com a presença de representantes da aldeia, da equipe de produção e de apoiadores locais.
O documentário, conforme explicam seus criadores, é um registro das memórias e das práticas culturais que moldam a identidade Kaingang. Mais pré-estreias estão previstas para 2026, com datas a serem anunciadas em breve.
Documentação como forma de reconhecimento
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e diretor do documentário, enfatiza a importância desse trabalho: “O objetivo desse filme é documentar a história da comunidade Kaingang, promovendo seu reconhecimento diante da sociedade não indígena.” Ele destaca a trajetória da aldeia até a conquista de seus direitos, passando pela experiência vivida por seus habitantes, algo que foi meticulosamente registrado. A produção foi viabilizada através da Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo.
Uma parte significativa do projeto envolveu a participação de membros mais velhos da comunidade, como o professor Dorvalino, proporcionando uma diversidade de vozes e experiências. O documentário inclui imagens aéreas e um registro rico da cultura local, desde a culinária até as danças e cantos tradicionais. “Capturamos o preparo do bolo na cinza, ouvimos as histórias passadas de geração para geração e gravamos as representações simbólicas da cultura Kaingang”, detalha Hubert.
A produção, que teve duração de um ano, incorpora falas em língua Kaingang, o que exigiu um cuidado especial na tradução e adaptação do conteúdo.
A importância da voz feminina
Elton Luiz Nascimento da Costa, ex-cacique e co-diretor do documentário, também compartilha sua visão sobre a importância de incluir diversas gerações na narrativa. “Queríamos que a juventude, as mulheres e os idosos estivessem juntos. Essa ideia se concretizou, mesmo com a ausência das crianças, que apareceram através do trabalho do professor Narciso no ensino da língua Kaingang”, destaca. Ele acredita que o testemunho dos mais velhos é essencial, pois eles guardam experiências que são fundamentais para a história da aldeia.
Além disso, Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres indígenas, reforça a necessidade de contar as histórias da própria comunidade. “Essas narrativas são importantes não apenas para nós, mas para a sociedade como um todo. Estamos aqui e seguimos resistindo, mostrando nossas memórias e nossa ancestralidade”, afirma.
Visibilidade e políticas culturais
Durante a pré-estreia, Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura, elogiou a iniciativa e destacou o impacto da Lei Paulo Gustavo na comunidade cultural. “Esta lei é uma conquista em um momento de dificuldades, trazendo recursos que permitem a valorização da cultura local”, explicou. Ela ressaltou a importância das políticas que priorizam territórios indígenas, quilombolas e periferias, elogiando o trabalho da Secretaria Municipal de Cultura que tem promovido a inclusão de artistas locais.
Com um formato de 20 minutos, o documentário está preparado para ser exibido em festivais e deve alcançar escolas públicas em eventos programados para março e abril, em comemoração à Semana dos Povos Indígenas. “Espero que o filme seja uma ferramenta educativa e fortaleça a luta pela continuidade da cultura Kaingang”, conclui Hubert.
A luta pela autonomia e visibilidade
Sueli Khey Kaingang também participa de outra produção que aborda a luta das mulheres indígenas em diferentes biomas do Brasil. “É crucial trazer nossa representatividade para fora dos nossos espaços”, diz ela. Para Khey, o direito de narrar suas próprias histórias é uma forma de resistência. “Hoje, não aceitamos mais que outros falem por nós. Precisamos reivindicar nossa voz e espaço, tanto na mídia quanto nas nossas comunidades.”
Essas vozes, que antes eram silenciadas, agora ecoam em um projeto que busca não apenas preservar a cultura, mas também promover a visibilidade das comunidades indígenas urbanas, evidenciando que sua presença vai além das florestas e tradições.
