Um Registro Importante na História Kaingang
Por Fi Ga é o nome que denomina a aldeia Kaingang situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma área marcada pela presença da colonização alemã. No idioma Kaingang, “por fi” significa tovaca, um pássaro que avisa os guerreiros sobre os perigos da mata, enquanto “gã” se refere à terra. Assim, Por Fi Ga se traduz como a “terra da tovaca”, um nome que encapsula a história e a memória desse povo.
Esse rico legado cultural é explorado no documentário “Por Fi Ga: História e Tradições”, que teve sua primeira pré-estreia no dia 15 de novembro, reunindo representantes da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e autoridades locais. O filme une relatos, memórias e práticas que moldam a identidade Kaingang, e outras sessões de pré-estreia estão previstas para 2026, com datas a serem anunciadas.
Documentar para Reconhecer
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, é o diretor do documentário, que surgiu do desejo de documentar e fortalecer a história da comunidade. “Por Fi Ga: História e Tradições é uma obra que tive a honra de dirigir junto com Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia. Nosso intuito foi contar a história da comunidade para que ela seja reconhecida pela sociedade não indígena. Registramos o processo de conquista do território, as razões da migração desse povo para a região e os desafios enfrentados para garantir seus direitos”, explica Hubert.
A produção, realizada em 2025 por meio da Lei Paulo Gustavo em São Leopoldo, teve o apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Hubert destaca a colaboração de diversas vozes, incluindo a do professor Dorvalino, que ajudaram a contar a trajetória da aldeia.
O projeto envolveu uma aproximação com a comunidade, roteirização e gravações, capturando imagens aéreas e elementos culturais como culinária, música e ancestralidade. “Tivemos a chance de registrar o preparo de pratos tradicionais e ouvir as histórias contadas por anciãos, bem como documentar danças e representações simbólicas. O filme é uma verdadeira coletânea de valores e princípios do povo Kaingang”, complementa.
O filme, com duração de 20 minutos, foi concebido para participar de festivais. Após a pré-estreia para a comunidade, ele será exibido em escolas e eventos programados para março e abril, em homenagem à Semana dos Povos Indígenas. Hubert espera que o documentário sirva como uma ferramenta educativa e de afirmação cultural.
Unindo Gerações e Histórias
Elton Luiz Nascimento da Costa, ex-cacique e co-diretor do filme, enfatiza que a ideia inicial foi unir diferentes gerações e grupos da aldeia. “Quisemos incluir a juventude, as mulheres e os mais velhos, e embora as crianças não possam participar ativamente, elas aparecem quando o professor Narciso ensina nossa língua materna, o Kaingang”, observa. Nascimento valoriza os relatos dos mais velhos, que detêm detalhes que ele mesmo não vivenciou.
A formação da comunidade remonta aos anos 2000, embora algumas famílias tenham chegado antes. Ele relembra sua experiência na escola, onde enfrentou racismo e bullying por conta de sua origem. Após essa vivência, tomou a decisão de que as crianças da aldeia precisavam de uma escola própria, preparadas para os desafios que encontrariam.
Atualmente, estima-se que entre 270 e 300 pessoas habitam a Aldeia Por Fi Ga, onde continuam a luta por reconhecimento e espaço nas esferas sociais e políticas.
A Voz das Mulheres Kaingang
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista dos direitos das mulheres, é uma das representantes femininas destacadas no documentário. Ela salienta a importância de dar voz às narrativas indígenas. “Estamos sempre na luta, trazendo nosso legado cultural, nossos grafismos e artesanatos para todos os espaços. Defendemos não apenas a demarcação territorial, mas também nosso espaço nas universidades e na política”, frisa.
Para Khey, o documentário representa um marco histórico, não apenas para o povo Kaingang, mas para toda a sociedade. “Essas narrativas mostrarão o que somos e como resistimos. A invisibilidade que enfrentamos em São Leopoldo precisa ser combatida com a visibilidade de nossas memórias e ancestralidade”, afirma.
Apoio e Políticas Culturais
Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, celebrou a pré-estreia e as conquistas oferecidas pela Lei Paulo Gustavo. Ela ressaltou a importância das cotas para comunidades indígenas, quilombolas e periféricas, além de elogiar o trabalho da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo na promoção da arte local.
Com quase R$ 2 milhões recebidos da Lei Paulo Gustavo, a cidade está se preparando para abrir novos editais que beneficiarão a comunidade artística local, incluindo indígenas e quilombolas. A representante do MinC também enfatizou a relevância de fortalecer a cultura, especialmente após as enchentes que afetaram a região em 2024.
Contando Nossa Própria História
Além de sua participação no documentário, Khey Kaingang integra um novo filme nacional dirigido por mulheres indígenas, chamado “Mulheres Bioma”, que destina-se a abordar a luta e representatividade das mulheres indígenas. A estreia internacional está marcada para os meses de junho ou julho na Alemanha. “É fundamental que levemos nossa voz para fora, para romper barreiras”, afirma Khey.
Ela observa a importância de que as vozes indígenas sejam ouvidas nas narrativas audiovisuais. “É essencial que as histórias sejam contadas por nossos próprios povos. Hoje, estamos aqui para falar por nós mesmos, com autonomia e voz ativa. A demarcação da nossa história nas telas é tão vital quanto a luta pelos nossos territórios físicos e direitos”, conclui.
