Um Legado Persistente de Ameaças
Embora Bolsonaro esteja preso há mais de 50 dias, a sua influência, o bolsonarismo, permanece viva e ativa na sociedade brasileira, especialmente no que diz respeito aos direitos dos povos indígenas e à proteção da floresta amazônica. A detenção do ex-presidente não eliminou a política que ele implementou, que ainda se manifesta como uma licença implícita para invasões, ameaças, garimpos, grilagens e violência contra comunidades indígenas.
No atual governo de Lula, existem esforços por parte de algumas esferas do funcionalismo público para restaurar o que foi desmantelado. Contudo, a contradição é evidente. O momento da posse de Lula, em que estava presente o cacique Raoni, simbolizou uma aliança com os povos indígenas, ao contrário dos ruralistas do centrão. Porém, as práticas do Planalto continuam a se alinhar ao agronegócio e a grandes projetos que ameaçam os direitos dos povos originários. Essa ambiguidade é visível na administração de Lula e reverbera nas aldeias.
Desafios em Terras Indígenas
O caso da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, localizada em Rondônia, ilustra bem essa problemática. Invasores continuam a contestar um território que já possui reconhecimento legal, utilizando brechas burocráticas e uma memória institucional distorcida, efeito do período Bolsonaro. O que não foi possível realizar pela força agora tenta ser conseguido através de documentos e trâmites administrativos.
Documentos gerados durante o desmonte das políticas de proteção indígena foram transformados em armas para ruralistas e parlamentares da extrema direita, que tentam reverter a retirada de grileiros de áreas protegidas. Uma reportagem recente da Repórter Brasil detalhou essa questão, evidenciando como atos e pareceres da Funai, emitidos durante o governo Bolsonaro, ainda são utilizados para dificultar a remoção de invasores em Rondônia.
A situação se agrava ainda mais na Terra Indígena Apyterewa, no Pará, que por muitos anos foi o território indígena mais desmatado do Brasil. A operação de desintrusão retirou milhares de invasores e uma significativa quantidade de gado criado ilegalmente. No entanto, o conflito não se encerrou com essa ação.
Pós-Desintrusão: Um Campo de Batalha
É crucial entender que a desintrusão consiste em uma operação estatal destinada a remover não indígenas de territórios indígenas, desmontar estruturas invasivas e garantir que a terra retorne aos seus legítimos possessores. Contudo, o que se observa em muitas dessas áreas é que o dia seguinte à desintrusão pode se transformar em um verdadeiro campo de batalha. Na Apyterewa, por exemplo, um vaqueiro que apoiava a retirada de gado ilegal foi assassinado a um mês atrás durante uma emboscada.
Lideranças indígenas têm relatado uma série de ataques desde a reintegração dos territórios, e a associação local solicitou uma presença contínua do Estado, descrevendo o período pós-desintrusão como altamente arriscado. Retirar invasores é uma medida necessária, mas não é suficiente. Quando o Estado se retira, o território se torna um vazio valioso, frequentemente preenchido por aqueles que possuem armas, dinheiro e logística.
O Crime se Reorganiza
Durante a COP30 em Belém, entrevistei Julia Ospina Kimbaya, coordenadora de acompanhamento de desintrusão do Ministério dos Povos Indígenas. Ela foi clara ao afirmar que a lógica do crime se adapta: quando pressionado, ele simplesmente muda de lugar. O garimpo ilegal não desaparece; apenas se desloca.
Essa realidade é observável na Terra Indígena Sararé, onde a exploração ilegal está se intensificando. Em 2025, foram registrados 1.814 alertas de garimpo ilegal na região, levando a operações que destruíram acampamentos e equipamentos. O garimpo traz consigo uma série de outros problemas, como a construção de pistas clandestinas, fornecimento de combustíveis e a presença de armados, como pistoleiros.
O Passado e o Presente do Conflito
Nada disso teria a magnitude atual se o Brasil não tivesse vivenciado quatro anos de um desmonte sistemático sob o governo Bolsonaro. Dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) revelam que entre 2019 e 2022 ocorreram 1.133 invasões possessórias e 795 assassinatos de indígenas, além de 3.552 mortes de crianças indígenas com idade até quatro anos, sem qualquer avanço na demarcação de terras nesse período.
No território Yanomami e Ye’kwana, o mesmo relatório apontou 621 mortes de crianças nessa faixa etária entre 2019 e 2022. A Hutukara Associação Yanomami enviou 21 ofícios a órgãos públicos no intervalo de dois anos, alertando sobre os riscos de genocídio e os ataques que estavam sofrendo.
A visão de Bolsonaro em relação aos indígenas nunca foi um segredo. Em 1998, enquanto ainda era deputado, ele elogiou a eficiência da cavalaria norte-americana em dizimar os indígenas e lamentou que o Brasil não tivesse adotado a mesma postura. Essa ideologia não se limitou a um simples discurso; foi compreendida como um incentivo à ação.
A Continuidade do Conflito
Embora o ex-presidente esteja preso devido a acusações de conspiração golpista, o bolsonarismo continua a ser uma força presente na Amazônia, como um dragão de sete cabeças. Personalidades como Flávio e Michelle Bolsonaro, assim como governadores como Tarcísio e Zema, disputam a base eleitoral da extrema direita, prometendo manter viva essa agenda.
A sétima cabeça desse dragão se movimenta com ares de doutrina. Aldo Rebelo, ex-ministro e figura ligada ao PCdoB, anunciou sua candidatura à presidência pelo Democracia Cristã, com a oficialização marcada para o dia 31 de janeiro em São Paulo. Aliados de Flávio Bolsonaro consideram Rebelo como um possível vice, uma vez que ele tem participado ativamente de debates sobre a Amazônia e é visto como um formulador de políticas que desafiam a demarcação de terras.
O governo Lula navega em águas contraditórias. Embora se busquem recuperar políticas indigenistas desmanteladas por Bolsonaro, o Planalto ainda apoia grandes projetos que cruzam áreas sensíveis. No entanto, uma mudança notável é a criação do Ministério dos Povos Indígenas, com Sonia Guajajara, uma figura proeminente no movimento indígena, à frente. Sua presença na Esplanada representa um avanço na institucionalização da luta indígena, embora não elimine as críticas e as tensões dentro do governo.
No contexto das Terras Indígenas, essa diferença pode ser decisiva para a sobrevivência de muitas comunidades. O dragão de sete cabeças do bolsonarismo continua a ameaçar, e a grande questão que se coloca é se o Brasil permitirá que essa ideologia volte a ocupar o centro do poder, tratando os povos indígenas como um obstáculo a ser removido.
