A Sombra do Bolsonarismo nas Terras Indígenas
Jair Bolsonaro está preso há mais de 50 dias, mas suas ideologias e políticas ainda reverberam na sociedade brasileira, especialmente entre os povos indígenas e na floresta amazônica. A prisão do ex-presidente não eliminou o bolsonarismo; ao contrário, a doutrina que ele propagou continua a ameaçar as Terras Indígenas, servindo como um sinal para invasores, garimpeiros e agressores.
Durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, algumas iniciativas buscam restaurar os direitos dos povos indígenas, mas as contradições são evidentes. Por exemplo, na cerimônia de posse, Lula esteve acompanhado do cacique Raoni, simbolizando a proteção aos direitos indígenas, em contraste com a presença de ruralistas no centro do poder. No entanto, o governo ainda se alinha ao agronegócio, promovendo grandes obras que colocam em risco as comunidades indígenas.
Invasões e Conflitos: O Caso da Uru-Eu-Wau-Wau
A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, localizada em Rondônia, exemplifica os conflitos atuais. Invasores tentam reverter disputas sobre um território que já foi reconhecido, utilizando caminhos burocráticos e aproveitando a desarticulação das políticas de proteção que marcaram o governo anterior. Documentos criados durante o desmonte institucional estão sendo usados como ferramentas por ruralistas e parlamentares da extrema direita para pressionar pela reintegração de grileiros em áreas protegidas.
Outro exemplo alarmante é a Terra Indígena Apyterewa, no Pará, reconhecida por ser uma das mais desmatadas do Brasil. Apesar de operações de desintrusão que expeliram milhares de invasores e gado ilegal, os conflitos persistem. O conceito de desintrusão refere-se ao processo de retirada de não indígenas que ocupam ilegalmente terras indígenas, mas a ausência de uma presença estatal contínua transforma a área em um alvo vulnerável para novas invasões.
Os Riscos Pós-Desintrusão e o Aumento da Violência
Após as operações de desintrusão, esse vazio muitas vezes é preenchido por indivíduos armados e interessados em explorar as riquezas da terra. A coordenadora de acompanhamento de desintrusão do Ministério dos Povos Indígenas, Julia Ospina Kimbaya, destacou que o crime se adapta e essa movimentação não desaparece, apenas muda de local.
No Mato Grosso, a Terra Indígena Sararé enfrenta uma pressão constante de garimpeiros que, em 2025, registrou 1.814 alertas relacionados ao garimpo ilegal. A entrada desses invasores é acompanhada de uma rede de logística pesada que inclui desde combustível até armas, e a falta de um esforço contínuo do Estado apenas prolonga a vulnerabilidade da área.
Os Efeitos do Desmonte e as Estatísticas Alarmantes
A situação atual é um reflexo dos quatro anos de desmonte promovido sob o governo Bolsonaro. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 2019 e 2022, houve 1.133 casos de invasões possessórias e 795 assassinatos de indígenas, enquanto a demarcação de terras estagnou. No território Yanomami e Ye’kwana, foram registradas 621 mortes de crianças pequenas neste mesmo período, destacando um cenário de crise humanitária.
A Hutukara Associação Yanomami, que atua em defesa dos direitos da comunidade, enviou 21 ofícios a órgãos públicos até 2022, alertando sobre os riscos de genocídio e ataques. A ideologia do ex-presidente, que remete à violência histórica contra os povos indígenas, não se limita a declarações do passado; ela se concretiza em políticas e ações que afetam diretamente os direitos dessas populações.
Um Futuro Incerto para os Povos Indígenas?
Ainda que o bolsonarismo tenha sido temporariamente contido pela prisão de Jair Bolsonaro, a luta dos povos indígenas está longe de acabar. A presença política de figuras como Flávio Bolsonaro e vários governadores com posições extremas indica que a batalha por direitos e reconhecimento continua. A possibilidade de Aldo Rebelo, ex-ministro e atual candidato à presidência, reforçar essa agenda é um sinal de que os desafios ainda estão por vir.
Lula, enquanto tenta reverter alguns dos danos causados, enfrenta uma governança cheia de contradições. A criação do Ministério dos Povos Indígenas e a nomeação de Sonia Guajajara são passos importantes, mas é crucial que essas ações resultem em políticas efetivas e permanentes para a proteção das terras e direitos indígenas. O desafio é claro: será que o Brasil permitirá que a sombra do bolsonarismo retorne ao centro do poder, desconsiderando novamente os povos indígenas?
