Retrato da Cultura Kaingang
A aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria em São Leopoldo, é conhecida como Por Fi Ga, uma expressão que significa “terra da tovaca”. Na língua kaingang, “tovaca” se refere a um pássaro que serve de alerta aos guerreiros da comunidade sobre a presença de feras na mata. Este nome não só representa a geografia local, mas também encapsula uma rica história cultural e ancestral.
Recentemente, essa narrativa tomou forma no documentário intitulado “Por Fi Ga: História e Tradições”, que teve sua pré-estreia em 15 de outubro, reunindo membros da aldeia, a equipe de produção e representantes do governo. O filme revela relatos, práticas e elementos que compõem a identidade Kaingang, além de programar mais sessões ao longo de 2026, com datas ainda a serem definidas.
Documentar para Reconhecer
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, é o diretor do documentário, que foi realizado em parceria com Elton Luiz Nascimento, ex-cacique da aldeia. Hubert destaca que o projeto visa documentar a história da comunidade Kaingang, buscando promover seu reconhecimento na sociedade não indígena. “Queríamos mostrar desde a luta pela conquista do território até as dificuldades enfrentadas para garantir seus direitos”, explica.
A produção, financiada pela Lei Paulo Gustavo com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, envolveu a coleta de depoimentos de diversas vozes da aldeia, incluindo o professor Dorvalino. O processo foi enriquecido com gravações que capturaram a diversidade cultural da aldeia, abrangendo culinária, música e tradição.
“Acompanhamos o preparo de alimentos, ouvimos anciãos compartilhando saberes passados de geração em geração e registramos danças e cantos que são símbolos da cultura Kaingang”, ressalta o diretor. O filme, com aproximadamente 20 minutos de duração, foi projetado para ser exibido em festivais e em escolas, especialmente durante a Semana dos Povos Indígenas, prevista para março e abril.
Integração de Gerações e a Voz das Mulheres
Elton Luiz Nascimento enfatiza a importância de unir diferentes gerações no documentário. Ele menciona a participação de jovens, mulheres e idosos na narrativa, ressaltando que a história deve ser contada por aqueles que a vivenciaram. O documentário localiza a formação da aldeia nos anos 2000, embora algumas famílias já habitassem a região anteriormente.
O ex-cacique também compartilha suas experiências de discriminação durante seus estudos fora da aldeia, o que o motivou a lutar por uma educação adequada dentro da comunidade. Hoje, estima-se que a aldeia abrigue entre 270 e 300 pessoas, com um esforço contínuo para preservar a cultura e os direitos dos Kaingang.
Por sua vez, Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista, reforça a relevância do documentário na luta pela visibilidade das mulheres indígenas. Ela afirma que, ao contar suas próprias histórias, a comunidade reivindica seu espaço na sociedade. Sueli destaca que o registro dessas narrativas é vital para desmistificar a ideia de que os indígenas estão limitados a contextos rurais e tradicionais.
Oportunidades e Políticas Culturais
A pré-estreia do documentário contou com a presença de Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura, que celebrou o impacto da Lei Paulo Gustavo. A lei, criada em um contexto de crise cultural, destina recursos a iniciativas culturais, incluindo aquelas voltadas para comunidades indígenas. Em São Leopoldo, foram liberados quase R$ 2 milhões, com a intenção de fortalecer a criação artística e garantir oportunidades a grupos historicamente marginalizados.
Novas Narrativas e Autonomia Indígena
Sueli Khey Kaingang também participa de um novo projeto cinematográfico liderado por mulheres indígenas, intitulado “Mulheres Bioma”, que aborda a luta e a representatividade das mulheres de diversas etnias. A estreia internacional está agendada para ocorrer na Alemanha em meados do ano. Para Sueli, a oportunidade de contar suas histórias é um passo crucial na luta por reconhecimento e respeito às suas identidades.
A ativista enfatiza que, apesar da ainda presente invisibilidade dos povos indígenas nas áreas urbanas, é fundamental que a sociedade reconheça a presença e as contribuições dos indígenas nas cidades. “Estamos aqui, e fazemos parte do tecido urbano. Precisamos que nossa voz e nossas histórias sejam ouvidas e respeitadas”, conclui.
