O Papel dos Artistas Indígenas na Curadoria
Em 2017, o Museu de Arte do Rio (MAR) deu início a um marco importante com a exposição “Dja guatá porã: Rio de Janeiro indígena”. Essa mostra destacou a presença da antropóloga Sandra Benites, do povo Guarani Nhandeva, como a primeira indígena a atuar em uma equipe curatorial de um grande museu brasileiro. Desde então, sua trajetória se expandiu; ela atuou como curadora-adjunta no Museu de Arte de São Paulo (Masp) entre 2019 e 2022 e foi uma das responsáveis pela primeira edição da Bienal das Amazônias, realizada em Belém (PA) em 2023. Atualmente, Benites assina a exposição coletiva “Insurgências indígenas: Arte, memória, resistência”, que está em cartaz até fevereiro de 2026 no Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis (RJ).
O envolvimento de curadores indígenas foi além de um caso isolado. Na 60ª Bienal de Veneza, em 2024, o pavilhão brasileiro foi liderado por três artistas visuais: Denilson Baniwa, Arissana Pataxó e Gustavo Caboco Wapichana. O espaço, intitulado Pavilhão Hãhãwpuá, trouxe a exposição “Ka´a Pûera: Nós somos pássaros que andam”, que abordou temas como a violação dos direitos indígenas, celebrando a memória dos povos originários. Em entrevista a Pesquisa FAPESP, Arissana Pataxó explica que Hãhãwpuá é um termo do povo Pataxó que se refere ao território conhecido como Brasil após a colonização, enfatizando a importância de reconhecer o país como terra indígena.
A Necessidade de Novas Abordagens na Curadoria
A antropóloga Ilana Goldstein, professora do Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o aumento da visibilidade da produção artística indígena demanda novos formatos de curadoria. “As artes indígenas não só criam pontes entre diferentes mundos, mas também podem gerar mal-entendidos, dada a diversidade de entendimentos sobre imagens e autoria”, reflete. Ela destaca que a curadoria de obras indígenas apresenta desafios como barreiras linguísticas e questões sobre quem tem o direito de ver e interpretar esses trabalhos.
A curadoria é mais do que uma simples organização; trata-se de construir narrativas em torno de objetos e imagens, moldando a forma como são percebidos. Goldstein, que realizou um doutorado investigando a arte aborígene da Austrália, observa que, assim como ocorreu lá, a arte indígena contemporânea no Brasil começou a ganhar espaço no circuito expositivo a partir da década de 2010, com referências significativas como a exposição “Primeiro encontro de todos os povos”, organizada em 2013 pelo artista e curador Macuxi, Jaider Esbell. Mostras como esta marcam o avanço da arte indígena no Brasil.
Os Desafios e Avanços na Curadoria Indígena
Enquanto isso, Ana Avelar, docente na Unifesp, observa que alguns artistas indígenas, ao notar que suas práticas artísticas eram mal compreendidas por não indígenas, passaram a ocupar também a função curatorial. “Assumir essa responsabilidade foi vital para garantir maior autonomia e definir o que se entende por arte contemporânea indígena”, afirma Avelar.
Arissana Pataxó ressalta a importância de ocupar espaços curatoriais, afirmando que isso ajuda a trazer mais artistas indígenas para o circuito convencional de arte. A artista também contribuiu para a publicação do dossiê “Processos curatoriais e exposições de artes indígenas na/da América Latina”, que reúne artigos de pesquisadores indígenas e não indígenas.
A formação acadêmica desempenha um papel crucial nesse contexto. Goldstein aponta que, embora alguns artistas-curadores tenham acesso à educação superior, o avanço é gradual e ainda há um predomínio de currículos baseados em arte canônica de matriz europeia. Kassia Borges, de origem Karajá e curadora do Museu das Culturas Indígenas, destaca a falta de literatura especializada para guiar as práticas curatoriais em relação à arte indígena.
Mudanças na Museologia e Colaboração Indígena
A transformação no campo da museologia desde os anos 1980, com o movimento da Nova Museologia, também impacta a curadoria indígena. Museus e coleções passaram a ser vistos como instrumentos de dominação, demandando uma escuta ativa das vozes indígenas. O Museu Paraense Emílio Goeldi, por exemplo, foi pioneiro ao abrir seu acervo etnográfico para as comunidades indígenas, promovendo projetos de museologia participativa.
A relação entre povos indígenas e museus é complexa e requer um esforço colaborativo, onde acordos e negociações são fundamentais. A museóloga Marília Xavier Cury enfatiza como essas interações podem resultar em novos conhecimentos e significados para as coleções, fundamentadas no respeito mútuo e na confiança.
A crescente presença de curadores indígenas no espaço artístico é um sinal de mudança, refletindo um desejo de redefinir narrativas e práticas na arte contemporânea brasileira. Com isso, o diálogo entre diferentes culturas tende a se aprofundar, promovendo uma maior valorização das expressões artísticas dos povos originários.
