A Evolução da Curadoria Indígena
No ano de 2017, o Museu de Arte do Rio (MAR) apresentou a exposição “Dja guatá porã: Rio de Janeiro indígena”, um marco significativo, pois trouxe a primeira curadora indígena em um grande museu de arte brasileiro: a antropóloga Sandra Benites, do povo Guarani Nhandeva, oriunda de Mato Grosso do Sul. Desde então, Benites tem se destacado como curadora-adjunta do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e participou da primeira edição da Bienal das Amazônias, realizada em Belém (PA), em 2023. Sua mais recente contribuição foi na coletiva “Insurgências indígenas: Arte, memória, resistência”, que ficará em exibição no Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis (RJ), até fevereiro de 2026.
O exemplo de Benites não é isolado. Em 2024, o pavilhão brasileiro na 60ª Bienal de Veneza foi dirigido por três curadores indígenas: os artistas Denilson Baniwa, Arissana Pataxó e Gustavo Caboco Wapichana. Sob o nome de Pavilhão Hãhãwpuá, o espaço deu vida à exposição “Ka´a Pûera: Nós somos pássaros que andam”, que incluiu obras de Glicéria Tupinambá, Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó. A mostra abordou a violação dos direitos indígenas e homenageou a memória dos povos originários. Em uma entrevista à Pesquisa FAPESP, Arissana Pataxó explicou que “Hãhãwpuá” se refere ao território que passou a ser conhecido como Brasil após a colonização, um nome escolhido para enfatizar a importância de reconhecer o país como terra indígena.
Novos Desafios na Curadoria de Arte Indígena
A antropóloga Ilana Goldstein, professora no Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que a crescente visibilidade da arte de povos originários no setor comercial e institucional revela uma necessidade urgente de novas abordagens curatoriais. “As artes indígenas podem atuar como um espaço de conexão entre culturas diferentes, mas também podem provocar mal-entendidos, uma vez que lidamos com maneiras próprias de interagir com imagens, objetos e a própria noção de autoria”, afirma Goldstein. Ela ressalta que a curadoria desta produção envolve desafios significativos, que vão desde barreiras linguísticas até questões sobre quem pode ver o que.
A curadoria, por definição, é responsável pela categorização e interpretação de objetos e coleções. Ela tem o poder de moldar narrativas a partir da seleção e apresentação de obras, propondo interpretações e relações entre elas. Goldstein, que fez sua pesquisa de doutorado sobre arte aborígene, comparou a evolução da curadoria no Brasil com o que ocorreu na Austrália a partir dos anos 1950, quando museus começaram a tratar obras de arte aborígene como arte, não apenas como artefatos etnográficos.
No Brasil, a arte indígena contemporânea ganhou destaque no circuito expositivo a partir de 2010. Um marco nesse processo foi a exposição “Primeiro encontro de todos os povos”, realizada em 2013 em Boa Vista (RR) pelo artista e curador Jaider Esbell, de origem Macuxi. No mesmo ano, em Belo Horizonte (MG), foi aberta a mostra “¡MIRA! Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas”, com curadoria da pesquisadora não indígena Maria Inês Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essas exposições sinalizaram uma nova geração de artistas que utilizam diversas formas de expressão, como pintura, escultura e vídeo, para abordar questões políticas sem perder suas raízes culturais.
O Papel dos Artistas Indígenas como Curadores
A participação de artistas indígenas como curadores se intensificou nos últimos anos, com a atuação deles em exposições que buscam validar suas práticas artísticas diante de públicos que, muitas vezes, têm dificuldade em compreendê-las. Ana Avelar, docente da Unifesp, destaca que muitos artistas indígenas passaram a exercer a curadoria para conquistar mais autonomia e definir o que é entendido como arte contemporânea indígena. “Assumir essa função é crucial para trazermos mais artistas indígenas para o sistema convencional de arte”, defende Souza, que integra a organização do dossiê “Processos curatoriais e exposições de artes indígenas na/da América Latina”, publicado em 2024 na revista Modos da Unicamp.
Goldstein comenta que muitos desses artistas-curadores passaram por universidades, um reflexo das ações afirmativas que têm, desde a década de 2010, promovido a inclusão de indígenas na vida acadêmica, embora de maneira lenta. No entanto, a formação precisa ser ampliada. Kassia Borges, artista e curadora de origem Karajá, ressalta que os currículos ainda se baseiam muito na arte europeia canônica e carecem de literatura especializada em arte indígena.
Transformações e o Futuro da Curadoria Indígena
A curadoria indígena, frequentemente, é resultado de parcerias com não indígenas. Jaider Esbell, que introduziu o conceito de “txaísmo” em sua obra, buscava novas formas de colaboração entre diferentes culturas. Ele começou sua carreira artística comercial na década de 2010 e, com o tempo, ganhou reconhecimento internacional. A exposição “Moquém Surarî – Arte indígena contemporânea”, que ele curou no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), trouxe à tona a diversidade da arte indígena brasileira.
Além disso, transformações nas práticas de museologia, especialmente desde os anos 1980, têm influenciado a curadoria indígena. A Nova Museologia enfatiza a função social dos museus e a interação com comunidades marginalizadas. No Brasil, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) foi pioneiro nesse movimento, promovendo projetos de museologia participativa que envolvem os povos indígenas.
Atualmente, museus como o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP também têm se mostrado mais abertos a práticas colaborativas. A curadora Marília Xavier Cury, que pesquisa a relação de etnias indígenas com o MAE-USP, considera essencial continuar o trabalho de colaboração e negociar acordos que respeitem e consolidem a relação de confiança entre museus e comunidades indígenas.
Com o avanço das práticas curatoriais, o campo da arte indígena contemporânea promete evoluir, refletindo uma troca não apenas de conhecimentos, mas de sentimentos e histórias entre diferentes culturas. Esse diálogo se torna cada vez mais necessário em um contexto onde a valorização da cultura indígena é fundamental para a construção de um país mais justo e inclusivo.
