A urgência de repensar a ciência brasileira e suas conexões regionais
O crescimento expressivo da produção acadêmica em todo o mundo, especialmente no Brasil, reflete uma mudança significativa em favor da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). Dados recentes apontam um aumento médio de aproximadamente 5,6% ao ano no número de artigos publicados, mas esse fenômeno exige uma análise crítica cuidadosa. Esse aumento, embora promissor, traz consigo questões relevantes que podem impactar a qualidade e a originalidade da produção científica.
Inicialmente, é crucial entender como esse crescimento pode afetar negativamente a pesquisa, especialmente em relação ao tempo dedicado à reflexão crítica e à avaliação por pares. Além disso, devemos considerar os efeitos sociais e institucionais que essa aceleração impõe, assim como as decisões estratégicas que as políticas de CT&I precisam adotar para os próximos anos.
Um estudo realizado por Hanson e colaboradores revela que o volume de artigos indexados na Web of Science e na Scopus aumentou cerca de 47% entre 2016 e 2022, com quase 897 mil publicações novas anualmente. No entanto, o número de doutores formados nesse período não acompanhou esse crescimento acelerado. Isso sugere que a pressão por publicações pode estar comprometendo a qualidade do trabalho acadêmico, reduzindo o tempo dedicado à produção de resultados e à avaliação rigorosa.
As mudanças nas práticas editoriais são um dos fatores que contribuem para essa expansão. Muitas editoras têm adotado estratégias agressivas, criando novos periódicos e aumentando a quantidade de artigos por edição, o que, paradoxalmente, diminui o tempo para a revisão por pares e a reflexão crítica sobre os conteúdos publicados. Resultados de estudos anteriores indicam que, à medida que o número de publicações cresce, as citações tendem a se concentrar em trabalhos já bem estabelecidos, comprometendo a renovação do conhecimento científico.
Além disso, a concentração de publicações nas principais universidades, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, revela uma realidade preocupante. O Censo da Educação Superior de 2020 mostrou que 15 universidades, sendo 13 delas localizadas nessas regiões, foram responsáveis por 60% da produção científica nacional entre 2013 e 2018. Isso levanta a questão da equidade nas políticas de pesquisa e do acesso a recursos que viabilizam a pesquisa em outras regiões do país.
Desigualdades e o Desafio da Interiorização da Ciência
Essas desigualdades regionais se refletem na distribuição de programas de pós-graduação e bolsas de produtividade em pesquisa. Em 2025, cerca de 71% das Bolsas de Produtividade em Pesquisa do CNPq estavam concentradas no Sudeste e Sul, enquanto regiões como o Norte e Nordeste permanecem subfinanciadas. Essa situação não só desestimula a interiorização da ciência, mas também limita o potencial científico que poderia ser explorado em regiões marginalizadas.
Essas assimetrias têm repercussões diretas nas áreas do conhecimento que recebem menos investimento, como exemplificado pela situação da Amazônia, onde apenas 10% dos investimentos em pesquisas de biodiversidade foram direcionados para a região em 2022. Enquanto as instituições em Belém e Manaus se beneficiam de recursos adequados, as áreas do interior amazônico continuam carentes de financiamento, comprometendo a capacidade de desenvolver pesquisas relevantes nessas regiões.
Assim, o que se observa é que, para abordar essas desigualdades, as políticas científicas precisam ir além da mera distribuição de recursos. Para que a ciência brasileira tenha um impacto real e duradouro, é necessário um novo paradigma que valorize a conexão entre conhecimento científico e as demandas sociais locais. Isso implica adotar uma abordagem que incorpore as vozes e saberes dos povos indígenas, comunidades tradicionais e outros grupos locais, promovendo uma verdadeira territorialização da ciência.
Exemplos recentes de iniciativas no Nordeste, como as que envolvem a população Potiguara, mostram que ao integrar Ciência Aberta com o conhecimento local, é possível gerar modelos de sociobioeconomia que além de respeitar o meio ambiente, também promovem o desenvolvimento social. No entanto, para que essas experiências prosperem, é crucial que haja um suporte estruturado que articule políticas educacionais, científicas, culturais e ambientais.
O futuro da ciência no Brasil não deve ser medido apenas pelo número de publicações e citações. Precisamos mudar a narrativa e redefinir o que consideramos como excelência científica. O verdadeiro valor da pesquisa reside na sua capacidade de impactar positivamente a sociedade, especialmente em áreas com desafios sociais e ambientais, onde o potencial para inovações transformadoras é imenso.
