O Compromisso de Eliza com a Educação e a Cultura
Desde cedo, Eliza Silvino da Silva mostrou que a educação era mais do que um sonho; era uma necessidade. Nascida na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Pacaraima, Roraima, ela enfrentou as dificuldades de um contexto familiar onde o incentivo aos estudos era escasso. Seus pais, Joaquim Mafra e Sabina Macuxi, dedicavam suas vidas à agricultura, criando seus cinco filhos longe das salas de aula. Mas a determinação de Eliza foi mais forte. Ao deixar a comunidade de Taxi, ela buscou aprendizado em uma escola de padres, dando início a uma trajetória que mudaria sua vida e a de muitos ao seu redor.
Após concluir seus estudos, Eliza ingressou na Universidade Federal de Roraima (UFRR), onde fez uma licenciatura intercultural pelo Instituto Insikiran. Essa formação a permitiu retornar à sua comunidade como professora de língua materna, tornando-se a primeira educadora da língua macuxi. Com um título de mestra, ela não apenas ensinava, mas trazia as tradições de seu povo para suas aulas. “Eliza tinha o dom de elaborar material didático em nossa língua. Ela fazia músicas e cantava com os alunos”, conta Leonildes Selvino da Silva, sua filha, em um tributo à dedicação da mãe.
A Contribuição de Eliza para a Comunidade Indígena
Desde o início dos anos 2000, Eliza lecionou na Escola Estadual Indígena Rosa Nascimento, localizada na comunidade Truaru da Cabeceira, onde se estabeleceu após o casamento com o também professor Enilton André da Silva. Juntos, construíram uma família com dez filhos, aos quais Eliza passou valores fundamentais, como a importância do estudo, da coletividade e do respeito à cultura indígena. Sua filha expressa essa herança: “A educação que ela nos deixou é um pilar em nossas vidas, sempre nos incentivando a contribuir com a nossa comunidade”. Muitos dos filhos seguiram os passos da mãe e se tornaram educadores.
Embora sua carreira educacional fosse marcante, Eliza nunca esqueceu as raízes agrícolas que herdou de seus pais. Continuou a cultivar a terra, mantendo plantações de manivas, bananas e abacaxis, além de criar galinhas e produzir farinha. Essa conexão com a agricultura era um reflexo de sua vida e de seu compromisso com a comunidade.
Uma Liderança Exemplificada pela Solidariedade
Eliza também se destacou como uma importante líder comunitária. Ela foi uma das fundadoras da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (Omir), onde atuou como coordenadora, sempre em busca de melhorias para as terras indígenas. Recentemente, sua dedicação se estendeu ao Polo de Produção de Grãos, iniciativa do governo em sua comunidade.
Conhecida por seus gestos de solidariedade, Eliza era a primeira a ajudar quem precisasse. “Se faltasse café ou açúcar na casa de alguém, ela repartia o que tinha, mesmo que fosse pouco”, relata sua filha, emocionada. Essa generosidade e preocupação com o próximo eram características marcantes de sua personalidade.
A Perda de uma Grande Educadora
Eliza Silvino da Silva faleceu no último dia 3 de novembro, aos 61 anos, devido a complicações de saúde após uma cirurgia. Ela deixa um legado inestimável para sua família e para toda a comunidade indígena. Seu marido, Enilton, de 69 anos, e seus dez filhos, além de 20 netos e quatro bisnetos, sentem profundamente sua falta.
Seu legado vai muito além das salas de aula e dos livros; é uma história de resistência, amor e dedicação à educação e à cultura macuxi. A vida e o ensinamento de Eliza Silvino da Silva continuarão a inspirar gerações futuras.
