A Educação como Ferramenta de Transformação
Eliza Silvino da Silva cresceu em uma família que, como muitas na região, dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Nascida na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no povo macuxi, em Pacaraima (RR), a infância de Eliza foi marcada pela falta de incentivos aos estudos. Seus pais, Joaquim Mafra e Sabina Macuxi, cultivavam a terra para garantir o sustento da família, criando cinco filhos dentro de uma rotina simples e rural.
Apesar das dificuldades, Eliza sempre teve sede de conhecimento. Em busca de mais oportunidades, deixou sua comunidade, Taxi, para estudar em uma escola administrada por padres. Após concluir o ensino básico, a jovem ingressou na Universidade Federal de Roraima (UFRR), onde se formou em licenciatura intercultural pelo Instituto Insikiran. Essa formação a levou a se tornar a primeira professora de língua macuxi, um feito notável que a permitiu não apenas ensinar, mas também preservar e promover a língua e as tradições do seu povo.
Um Legado Cultural e Educacional
Eliza se destacou em suas aulas, que eram repletas de elementos culturais. Suas iniciativas incluíam a elaboração de materiais didáticos na língua materna, além de compor músicas e engajar os alunos em atividades que reforçavam suas raízes. Isso foi confirmado por sua filha, Leonildes Selvino da Silva, de 46 anos, que destacou o talento da mãe em transmitir a cultura macuxi por meio da educação.
Desde o início dos anos 2000, Eliza lecionava na Escola Estadual Indígena Rosa Nascimento, na comunidade Truaru da Cabeceira, onde se estabeleceu após o casamento com Enilton André da Silva, um colega professor com quem compartilhou 47 anos de união. Juntos, tiveram dez filhos, todos incentivados a valorizar a educação e a coletividade. Leonildes comentou sobre a importância desse legado: “Nós temos essa educação que ela deixou. Isso serve muito para nós no dia a dia, para não sermos individualistas, contribuir e compartilhar com os que precisam.”
Compromisso com a Comunidade
Mesmo com uma carreira educacional sólida, Eliza nunca abandonou suas raízes. Continuou contribuindo para a agricultura local, mantendo plantações de manivas, bananas e abacaxis, além de criar galinhas e produzir farinha. Seu compromisso com a terra e a comunidade era profundo e se refletia em suas ações diárias.
Eliza não se limitou apenas ao ambiente escolar; ela se destacou como uma líder na luta por melhorias nas terras indígenas em Roraima. Como uma das fundadoras da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (Omir), atuou como primeira coordenadora da entidade, promovendo ações voltadas à valorização e ao empoderamento das mulheres na região. Recentemente, coordenava um Polo de Produção de Grãos, um projeto desenvolvido pelo governo na comunidade.
Reconhecida por sua generosidade, Eliza era uma figura querida entre os membros da comunidade. “Se faltasse um café ou açúcar na casa de alguém, ela podia ter só um quilo, mas repartia”, afirmou uma amiga sobre as ações solidárias da professora, que sempre se preocupava com o bem-estar dos outros.
Uma Perda Inestimável
Eliza Silvino da Silva faleceu no dia 3 de novembro, aos 61 anos, após complicações de saúde decorrentes de uma cirurgia. Ela deixa um legado imenso, não apenas na educação, mas também na luta pelos direitos e a valorização da cultura indígena. Seu marido, Enilton, de 69 anos, e seus dez filhos, Leonilde, Onildo, Elinildo, Elisângela, Leuriene, Edirnildo, Edinilton, Euzirene, Erinildo Maruai e Erinilton Anikê, continuam a honrar sua memória. Além disso, Eliza deixa 20 netos e quatro bisnetos, que certamente levarão adiante os ensinamentos e o amor pela cultura macuxi.
