A Autobiografia do Cacique Raoni Revela Lutas e Conquistas dos Povos Indígenas Brasileiros
O diálogo entre os indígenas e a sociedade brasileira tem frequentemente sido narrado a partir da perspectiva dos não-indígenas. No livro “Raoni – Memórias do cacique”, os leitores têm a oportunidade de conhecer essa história sob a ótica de Ropni Mẽtyktire, um dos maiores líderes indígenas que o Brasil já teve. O cacique, que foi contatado na adolescência pelos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Bôas — sertanistas responsáveis pela criação do Parque Indígena do Xingu —, destaca a importância dessas alianças na luta pelos direitos dos povos originários.
Nascido em 1937, Raoni está presente nas esferas de poder há mais de sessenta anos. Em 1960, durante a fundação de Brasília, ele teve um encontro marcante com o presidente Juscelino Kubitschek. Na ocasião, JK apresentou um projeto para transformar a Ilha do Bananal, localizada no atual estado do Tocantins, em um polo turístico e agropecuário. Raoni não hesitou em confrontar o presidente, afirmando: “Você já fez uma cidade pros brancos. A Ilha do Bananal é dos indígenas.” Esse diálogo levou Kubitschek a reconsiderar seus planos.
Raoni também manteve um relacionamento constante com José Sarney, e durante a presidência do maranhense, atuou ativamente pela inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988. Nesse período, estabeleceu parcerias internacionais, como com o músico britânico Sting, em uma turnê global voltada para arrecadar fundos para a demarcação de terras indígenas. O cacique estabeleceu um bom relacionamento também com Fernando Collor, que foi responsável pela demarcação da Terra Indígena Yanomami, a maior do país, com uma área equivalente ao estado de Santa Catarina. No entanto, Jair Bolsonaro e Michel Temer foram os únicos presidentes da Nova República que não acolheram Raoni em suas gestões.
Uma das principais lutas de Raoni foi contra o represamento do Rio Xingu — chamado de Bytire por seu povo — para a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Sua mobilização foi crucial para barrar o projeto original, que havia sido planejado durante a ditadura militar. Posteriormente, Lula decidiu construir uma versão reduzida da usina ao final de seu segundo mandato. Em 2023, Raoni teve a oportunidade de se encontrar com Lula antes da posse do presidente e alertou-o: “Você não pode repetir os erros do passado.”
O relato das interações do cacique com governantes e personalidades do mundo artístico proporciona uma nova perspectiva sobre episódios que muitos leitores podem ter conhecido apenas por meio da mídia. Contudo, o aspecto mais rico e surpreendente de sua autobiografia se revela nas narrativas do cotidiano: a infância na aldeia, os rituais de passagem para a vida adulta, e as práticas de caça e pesca. O livro também descreve a trajetória de Raoni até se tornar um pajé, uma faceta de sua vida menos conhecida pelo público, oferecendo uma visão fascinante do universo espiritual de seu povo.
O texto das “Memórias do cacique” foi elaborado a partir de conversas de Raoni com seus netos na língua mebêngôkre. A edição conta com mapas, um glossário e uma cronologia que ajudam a contextualizar os relatos. Com o sucesso de obras por líderes indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, esse lançamento se torna essencial para quem deseja compreender a identidade do Brasil no século XXI.
