A Tradição do Coco de Roda na Cultura Potiguara
No coração do território indígena Potiguara, localizado em Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba, o coco de roda permanece como uma vibrante manifestação de identidade e resistência cultural. Em meio a séculos de lutas e tentativas de apagamento dos povos originários, essa prática tradicional reafirma o pertencimento indígena e a continuidade das tradições ancestrais.
Mais do que um simples evento de música e dança, o coco de roda se configura como uma prática coletiva que envolve oralidade, movimento corporal e a conexão com a terra. A dança ocorre em círculo, com palmas, batidas no chão e a condução do canto por um puxador ou mestra de coco. As letras das canções refletem o cotidiano das aldeias, a relação íntima com a natureza, a religiosidade e a ancestralidade do povo Potiguara, promovendo, assim, o fortalecimento dos laços comunitários e a transmissão de saberes entre as gerações.
Coco de Roda Joana Ferreira: Uma Homenagem à Ancestralidade
Um dos grupos destacados na preservação dessa tradição é o Coco de Roda Joana Ferreira, fundado em janeiro de 2024 na aldeia indígena Alto do Tambá. Este grupo presta homenagem a Joana Ferreira, uma guerreira Potiguara reconhecida por seu papel significativo nas áreas cultural e religiosa, além de sua participação em rituais tradicionais, como o toré. A memória de Joana é mantida viva nas músicas e na essência coletiva que guia o grupo.
Composto por filhos, netos e moradores da comunidade, o Coco de Roda Joana Ferreira serve como um espaço vital para o fortalecimento da ancestralidade e da memória coletiva. Muitas das músicas apresentadas são autorais e abordam temas que dialogam diretamente com as questões das comunidades indígenas, suas belezas naturais e a fé que permeia seu cotidiano. O improviso e o humor, elementos característicos da oralidade indígena, também fazem parte das apresentações, criando uma conexão próxima com o público e reforçando o caráter popular do coco de roda.
Um Encontro de Tradições e Resistência Cultural
No território Potiguara, o coco de roda convive harmoniosamente com outras expressões culturais, como o toré e a ciranda. Enquanto o toré ocupa um papel central na espiritualidade indígena, o coco de roda expande os espaços de encontro, celebração e afirmação cultural, promovendo a participação popular e a inclusão social. Esses eventos fortalecem a resistência cultural em um país que ainda enfrenta desafios na afirmação dos direitos dos povos indígenas.
O coco de roda, portanto, é mais do que uma simples memória; é um ato político que ecoa a história e a força dos Potiguara. Cada canção entoada não apenas ressoa a cultura indígena, mas também se posiciona contra a invisibilidade e a negação dos direitos de seus povos. É uma afirmação clara de que a cultura indígena é resistência, pertencimento e um futuro a ser construído.
Sobre os Autores: Juracy Dayse Delfino Soares é indígena Potiguara, atua como professora na rede pública de ensino e é estudante de letras – língua portuguesa na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Natália Bianca Leandro de Moura, também indígena Potiguara, estuda secretariado executivo e letras – inglês na UFPB, além de colaborar voluntariamente no projeto de extensão Cocam e presidir a Empresa Júnior Inovasec Jr.
