Fortalecendo laços e resistências na Amazônia
Por Lígia Apel, da Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Norte 1
Os rios Javari, Purus, Madeira e muitos outros formam o Grande Amazonas, conectando vidas e culturas. No contexto da 46ª Assembleia do Cimi Regional Norte 1, realizada nos dias 6 e 7 de fevereiro, no Centro de Formação Xare, em Manaus, missionários, indígenas e parceiros se uniram para celebrar a força e a resiliência dos povos indígenas. O encontro, que ecoou o lema do Papa Francisco na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia, focou na ideia de que ‘o rio não nos separa; mas une-nos’, refletindo sobre a interconexão entre as comunidades e a natureza.
O tema da assembleia, ‘Defesa da Natureza e dos Territórios, no contexto pós-COP 30 e das eleições de 2026’, abordou a luta contínua dos povos indígenas frente a novos desafios. Luiz Ventura, secretário executivo do Cimi, enfatizou a importância do encontro como um espaço de diálogo e planejamento estratégico para enfrentar os atuais desafios socioambientais e políticos. ‘É fundamental para atualizar a leitura da realidade e planejar as ações necessárias em parceria com os povos indígenas’, afirmou Ventura.
Durante a assembleia, os participantes compartilharam experiências e preocupações, refletindo sobre a grande diversidade que caracteriza a região amazônica. A missionária Raimunda Paixão, em sua fala, destacou: ‘Nossas veias são como os rios que regem a vida, alimentam pessoas, animais e florestas’. Essa conexão profunda com a natureza e a cultura indígena é um aspecto central na luta pela preservação dos direitos e territórios.
Por outro lado, as vozes que se levantaram durante o evento também abordaram as novas formas de colonização e exploração que os povos indígenas enfrentam. Apesar das legislações garantidoras de seus direitos, os ataques continuam, especialmente com o Congresso Nacional se alinhando a interesses econômicos que ameaçam as terras indígenas. ‘O marco temporal foi declarado inconstitucional pelo STF, mas a luta deve continuar’, advertiu Ventura, alertando que os novos procedimentos de demarcação podem dificultar ainda mais a proteção dos territórios em disputa.
Edinho Batista Macuxi, liderança do Conselho Indígena de Roraima, reafirmou a resistência dos povos: ‘Reduziram a gente, mas nunca venceram. Somos símbolo de resistência’. Esse sentimento de luta e resiliência foi reforçado por Estefany Sateré Mawé, que destacou a importância do trabalho realizado pela Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam) em suas comunidades.
Na assembleia, as vozes da floresta se uniram em um chamado à ação. Perla Kaixana, representando várias aldeias dos povos Kaixana e Kokama, comentou sobre a parceria com o Cimi, afirmando que sua atuação é essencial para a manutenção das culturas indígenas. ‘O Cimi é descolonizador porque ele constrói em vez de destruir’, disse, reforçando a importância da educação e do diálogo entre as culturas.
As preocupações com a exploração predatória da natureza foram veiculadas por jovens, como Moisés Tikuna, de apenas 16 anos, que expressou sua angústia sobre a degradação ambiental que afeta seu povo. A necessidade de proteção e preservação da Amazônia fez parte das discussões, com várias lideranças alertando sobre as consequências devastadoras das atividades extrativistas e da mineração na região.
A assembleia não apenas revisitou os desafios enfrentados, mas também fortaleceu as estruturas institucionais do Cimi. O novo colegiado, composto por cinco coordenadores, busca enfrentar as adversidades com sabedoria e experiência. Jussara Góes, uma das coordenadoras eleitas, enfatizou a importância do fortalecimento das bases e da continuidade da luta pelos direitos indígenas, encarando o futuro com esperança.
A integração das novas vozes missionárias, como as de Daniel dos Santos Lima, Ir. Lígia Maria de Jesus Cipriano e Sirlei do Nascimento de Andrade, também sinaliza um novo capítulo na missão do Cimi. ‘A missionariedade é uma chama que se acende a cada novo comprometimento’, refletiu Ventura, reforçando que a causa indígena é um esforço coletivo que precisa de apoio contínuo.
Ao final, a assembleia reafirmou o lema do Cimi: ‘A causa indígena é de todos nós’, um chamado à responsabilidade compartilhada na luta pela vida, cultura e direitos dos povos indígenas na Amazônia.
