Povos Indígenas em Resistência
Hoje, marca a passagem de 30 dias do acampamento de aproximadamente 600 representantes de 14 povos indígenas da Amazônia, localizados em frente ao porto da Cargill, em Santarém. Eles exigem do governo Lula a revogação do Decreto 12.600, que possibilita a dragagem do rio e a privatização das águas do Rio Tapajós, transformando-o em uma hidrovia destinada ao transporte de soja e outros grãos.
Embora o governo tenha demonstrado certa hesitação em relação à dragagem, mantém a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins dentro do Programa Nacional de Desestatização. Isso implica que a gestão e manutenção dessas hidrovias, que somam 280 km apenas no Tapajós, serão transferidas para grandes multinacionais do agronegócio. Essa mudança pode levar à construção de novos portos privados, convertendo o rio em um corredor fluvial, sem que as comunidades que dele dependem sejam consultadas.
A Devastação Ambiental e Seus Impactos
A monocultura de soja e milho tem causado estragos na Amazônia, com o desmatamento acelerado da floresta e a contaminação das águas e do meio ambiente pelo uso intensivo de agrotóxicos. O que se observa no Rio Tapajós, um dos principais afluentes da Amazônia, é alarmante: trens com até 35 barcaças transportam grãos rumo à China e à Europa. Atualmente, 41 portos foram construídos ou estão em fase de projeto ao longo do rio, onde foram movimentadas mais de 15 milhões de toneladas de carga no ano passado.
A poluição por mercúrio, tanto da mineração legal quanto da ilegal, e a remoção do leito do rio representam os principais desafios enfrentados pelos povos indígenas. De acordo com Rafael Zilio, ao tratar um rio apenas como uma “hidrovia”, tanto o Estado quanto as grandes corporações de mineração e agronegócio fomentam uma devastação ambiental sem precedentes na Amazônia.
Mobilização e Autodemarcação
No último mês, a estrada para o aeroporto e o aeroporto de Santarém foram bloqueados por algumas horas como forma de protesto. Silvia Adoue, uma das lideranças munduruku, relembra que “os munduruku não esperaram pela demarcação de seu território pelo Estado”; em vez disso, o povo implementou a “autodemarcação em parceria com as comunidades de pescadores”, evidenciando a capacidade de união entre povos com diferentes perspectivas.
Essa resistência, que se prolonga há muitos anos, é uma expressão de luta pela vida. Alguns pontos importantes podem ser destacados a partir desse notável movimento. Primeiramente, a luta se dá sob um governo considerado progressista, com Guilherme Boulos como secretário da Presidência e Sonia Guajajara ocupando o cargo de ministra dos Povos Indígenas, ambos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Aqueles que acreditam que essas figuras políticas farão algo diferente do que o capital deseja podem estar enganados. Eles se tornaram representantes das ambições das multinacionais, diante do silêncio vergonhoso de movimentos como o sindicato e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que priorizam a reeleição de Lula.
Desafios do Capitalismo e da Luta Indígena
Em segundo lugar, o capitalismo busca a privatização total da natureza para acumular mais capital. Transformar os grandes rios amazônicos em hidrovias repletas de infraestruturas é uma garantia de destruição e um ataque direto aos povos que habitam suas margens. A disputa é acirrada: enquanto a Cargill arrecada impressionantes 154 bilhões de dólares por ano, os povos indígenas, como os munduruku, que somam cerca de 13.000 pessoas, contam apenas com o apoio de outras comunidades semelhantes.
Por fim, a decisão de defender a vida e a dignidade dos povos é fundamental. O relatório da Sumaúma destaca que esses povos estão na “linha de frente da resistência ao agrocapitalismo global”. Apesar de seu número reduzido, mostram-se firmes e determinados a não retroceder. Uma mulher munduruku declarou: “Os brancos veem o rio como uma mercadoria; para nós, é vida”. Essa frase ressoa com o que muitos povos indígenas ao redor do mundo têm afirmado, desde o Wallmapu até a Mesoamérica.
A resiliência desses povos, mesmo em meio a adversidades tão grandes, deve servir como fonte de aprendizado para todos. Com a consciência de que nem a direita nem a esquerda se dedicam a salvar a humanidade da catástrofe ambiental, é chegada a hora de os povos que estão colocando o corpo e o sangue em defesa da vida e da natureza serem ouvidos.
