Novas Vagas para Indígenas e Quilombolas no Itamaraty
O Itamaraty anunciou a abertura de 60 vagas para seu quadro de diplomatas, das quais duas são destinadas a indígenas e uma a quilombolas. Além disso, três vagas são reservadas para pessoas com deficiência e 15 para candidatos pretos e pardos. O salário inicial para os selecionados é de R$ 22.558.
Conforme o edital, uma pessoa indígena é definida como aquela que se reconhece como parte de uma coletividade indígena e é reconhecida pelos membros dessa coletividade, independentemente de residir em território indígena. Já a definição de candidato quilombola abarca pessoas que pertencem a grupos étnico-raciais com uma trajetória histórica própria e que possuem relações territoriais específicas, além da presunção de ancestralidade preta ou parda.
Uma Conquista Histórica
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, destacou que a criação dessas vagas é um resultado de um esforço articulado dentro do governo federal. Segundo ela, a renovação e ampliação da Lei de Cotas foi fundamental, uma vez que agora prevê a presença de indígenas em concursos públicos. Outro fator importante foi o programa Kuntari Katu, criado em 2024 em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), focado na formação de jovens lideranças indígenas para acompanhar negociações internacionais.
“A diplomacia brasileira, que carrega uma marca simbólica de saber dialogar com diferentes nações ao redor do mundo, vai escutar e aprender mais com os diversos povos que também formam nosso país”, afirmou a ministra em entrevista ao g1.
Identidade e Trajetória no Concurso
Recentemente, o g1 também contou a trajetória de Douglas Almeida, um ex-garçom que se tornou diplomata. Agora, entre os aspirantes a uma vaga no Itamaraty está Eliel Camlem, de 24 anos, indígena do povo Xokleng Laklãnõ, de Santa Catarina. Filho de uma liderança indígena e de uma professora, Eliel estudou em uma escola bilíngue, onde aprendeu tanto português quanto sua língua nativa dentro da comunidade.
Atualmente, Eliel está no último ano do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e se prepara para o concurso há aproximadamente três anos. “A diplomacia e o CACD não são espaços fáceis. Historicamente, esses ambientes são ocupados por uma minoria da sociedade brasileira. A minha entrada nesses espaços não significa que eu me distancie da minha identidade. Ao contrário: essa identidade é o que dá sentido à minha trajetória”, disse o estudante ao g1.
A Necessidade de Inclusão
Para Sônia Guajajara, a criação dessas vagas é uma ação necessária para que a participação indígena na diplomacia não seja apenas simbólica. “As políticas de ações afirmativas, que incluem grupos representativos da sociedade brasileira na estrutura do Estado, são um aspecto democrático e também contribuem para um funcionamento mais eficiente do Estado”, enfatizou.
Diplomacia e Identidade Cultural
O despertar do interesse de Eliel pela carreira diplomática não foi imediato. Ele admite que enfrentou dificuldades de adaptação no início do curso, mas com o passar do tempo ficou mais entusiasmado e passou a enxergar a política externa como um espaço estratégico. “Prestar o CACD representa um processo de autodescoberta, de entender meu território e de como me relacionar com o mundo. A diplomacia pode ser um meio de diálogo, de construir pontes”, afirma.
Para Eliel, a disputa por uma vaga específica é um reconhecimento das desigualdades históricas vividas pelos povos indígenas. Apesar dos desafios, ele vê na presença de indígenas na diplomacia uma oportunidade de ampliar as perspectivas no campo internacional. “A negociação, o diálogo e a resistência sempre foram essenciais para defendermos nossos corpos e territórios. A presença de diplomatas indígenas pode trazer uma visão mais ampla sobre o diálogo e a coletividade”, conclui.
O papel do Kuntari Katu
Eliel também teve participação no programa Kuntari, que visa a formação de lideranças indígenas. A ministra Sônia Guajajara explicou que essa iniciativa surgiu após a COP do Clima de 2023, realizada em Dubai. Na primeira edição do programa, 30 jovens foram selecionados, dos quais 28 participaram da COP30. O objetivo, segundo a ministra, foi ampliar a qualificação técnica e a participação indígena nas negociações internacionais.
“Agora, o MRE enfrentará o desafio de integrar essa sabedoria e conhecimentos indígenas. Todos nós sairemos ganhando com essa iniciativa. Embora as mudanças possam parecer pequenas inicialmente, tenho a expectativa de que isso resultará em mais respeito à democracia, diversidade e inclusão, além de um compromisso com a conservação da biodiversidade e da cultura no Brasil e no mundo”, finalizou Guajajara ao g1.
