Manifestação e a luta por justiça
No recente Carnaval, uma manifestação das comunidades indígenas do Município de Amajari chocou turistas que visitavam a famosa Serra do Tepequém. O bloqueio na rodovia estadual RR-203 teve o intuito de chamar a atenção para a crescente violência e o preconceito enfrentados pelos povos indígenas da região. A mobilização, que pegou muitos de surpresa, foi uma resposta à trágica morte da liderança indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, encontrado sem vida à beira da estrada, dez dias após seu desaparecimento.
O protesto se destacou não apenas por sua relevância, mas também por quebrar o silêncio que se instaurou em torno da morte de Gabriel. A falta de atenção da sociedade civil em relação a casos de violência contra indígenas é alarmante. Através do bloqueio, os manifestantes enfatizaram que sua luta é também uma questão de direitos: o direito de ir e vir, e o direito à vida. Se a manifestação não tivesse ocorrido, é muito provável que o caso de Gabriel teria sido esquecido.
Violência alarmante contra povos indígenas
A violência contra comunidades indígenas em Roraima se tornou uma questão recorrente e preocupante. O relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, publicado recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), colocou o estado na ponta do ranking nacional de assassinatos de indígenas, totalizando 57 casos em 2024. Além disso, no mesmo período, 139 crianças indígenas com até 4 anos foram registradas como vítimas fatais, colocando Roraima em segundo lugar no país, atrás apenas do Amazonas.
Os números mostram uma realidade cruel e persistente: os estados mais afetados por assassinatos de indígenas incluem Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul, com registros que se mantêm altos nos últimos anos. É essencial lembrar que, enquanto a luta por direitos e visibilidade se intensifica, os assassinatos, como os de Gabriel e de outras lideranças indígenas, continuam a marcar a paisagem e a história da resistência desses povos.
Um território de conflitos e grilagens
O município de Amajari possui oito terras indígenas que abrigam 19 comunidades das etnias Macuxi, Wapichana, Sapará e Taurepang. Entretanto, essa rica diversidade cultural e territorial enfrenta desafios significativos, especialmente devido à presença de grandes fazendas, muitas vezes pertencentes a políticos locais e seus familiares. Essa combinação de interesses geralmente resulta em conflitos agrários, como o caso do assassinato do então candidato a prefeito, Toinho da Aderr, em setembro do ano passado, um crime associado a uma disputa de terras que perdurava há 15 anos.
Por trás de cada tragédia, como a morte de Gabriel Rodrigues, há questões mais amplas que envolvem a grilagem de terras, a exploração ilegal de recursos e a corrupção. O Relatório do Cimi menciona, por exemplo, a invasão da Terra Indígena Pirititi, no sul do estado, onde uma ação conjunta do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, em maio de 2023, evidenciou a presença de posseiros e grileiros na área. Informações reveladas pela imprensa indicam que um engenheiro agrônomo, supostamente envolvido em um esquema de grilagem digital, registrou mais de 6 mil hectares de propriedades agrícolas que se sobrepõem ao território indígena, vinculado a práticas de desmatamento ilegal.
Uma luta contínua por reconhecimento
A luta dos povos indígenas em Roraima é marcada por constantes desafios e pela necessidade de reconhecimento de seus direitos.Apesar dos avanços nos últimos anos, a realidade cotidiana é repleta de adversidades. O bloqueio da RR-203, portanto, não apenas representou um pedido de justiça para Gabriel, mas também um clamor por visibilidade e respeito à identidade e aos direitos dos indígenas. É fundamental que a sociedade, as autoridades e as instituições se mobilizem para garantir a proteção e a justiça para estes povos, que continuam a resistir e a lutar por um futuro digno.
