A Importância do Reconhecimento das Mulheres na Ciência
A valorização da imagem das mulheres cientistas é uma questão premente que deve ser discutida com urgência. Isso se torna ainda mais relevante quando consideramos os altos índices de violência contra as mulheres no Brasil, especialmente em Mato Grosso, onde a luta pelo respeito e dignidade feminina se torna crucial. Sou pesquisadora do Projeto Museu-Lab de arte, ciência e tecnologia, desenvolvido no Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde tenho dedicado esforços para investigar e promover a popularização da ciência, focando na presença feminina nesse campo.
Nos últimos anos, os dados sobre violência contra as mulheres em Mato Grosso têm sido alarmantes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025, posicionou o estado como o líder nacional em feminicídio no ano anterior. Com 46 casos registrados de janeiro a outubro de 2025, o aumento de 18% em relação ao ano anterior revela uma realidade preocupante. O Painel PE – Feminicídio e Violência Doméstica do Sistema OMNI também apontou cerca de 5 mil ações penais relacionadas a essas violências em 2025.
Porém, o feminicídio é apenas a ponta do iceberg em uma série de violências cotidianas que as mulheres enfrentam, inclusive no ambiente acadêmico. Dentro das universidades, muitas estudantes ainda são vistas através das lentes de esterótipos que limitam suas opções de carreira a áreas consideradas ‘femininas’ e menos prestigiadas. Essa mentalidade fomenta a criação de “guetos femininos”, afastando as mulheres de campos como a Física, onde a presença delas é escassa.
O Desafio da Permanência das Mulheres em Cursos de Ciências Exatas
Na UFMT, dados recentes sobre o curso de Física evidenciam essa realidade. Na lista de formandos de 2024, apenas duas mulheres graduaram-se no Bacharelado em Física, em um total de nove alunos. Na Licenciatura, o cenário é semelhante: apenas duas mulheres completaram o curso, sendo as únicas estudantes a finalizar a licenciatura naquele semestre. Essa situação levanta questões sérias sobre como as alunas percebem sua permanência em um ambiente considerado ‘masculino’.
Para explorar essas percepções, conduzi um estudo com alunas do projeto de extensão Mulheres nas Ciências, vinculado ao Instituto de Física da UFMT. Cerca de dez alunas participaram de debates sobre a presença feminina nas Ciências Exatas e os desafios que enfrentam. Elas relataram que, embora haja um equilíbrio na admissão, muitas mulheres não conseguem concluir os cursos, um fenômeno que precisa ser analisado com atenção.
Dialogando sobre Sustentabilidade e a Questão Feminina
A discussão sobre a presença das mulheres em campos historicamente dominados por homens é central no meu trabalho de pesquisa. Como pesquisadora das Ciências Humanas e Sociais, busco entender as intersecções entre diversas áreas do conhecimento, promovendo a popularização da ciência. Realizei visitas a instituições e museus de ciência, além de aplicar um questionário com educadores da educação básica, visando descobrir como a ciência pode ser disseminada de maneira mais eficaz.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento que orienta a educação no Brasil e que inclui a temática da presença feminina nas ciências. A BNCC estabelece competências que buscam desenvolver o letramento científico e formar cidadãos críticos e engajados em questões de sustentabilidade e bem-estar social. Nossas análises têm se concentrado nas competências da área de Ciências da Natureza, fundamentais para formar um olhar crítico sobre o mundo.
O Papel das Artes na Pesquisa Científica e na Valorização das Mulheres
Nosso projeto também busca unir arte e ciência, reconhecendo a importância das expressões artísticas na mediação do conhecimento científico. Recentemente, conseguimos um espaço na UFMT para a execução do projeto, onde pretendemos realizar exposições que reúnam imagens, textos, objetos e outras materialidades que valorizem a atuação das mulheres na ciência.
O projeto inclui três núcleos, com um foco na difusão de perfis de cientistas mulheres, destacando ao menos dez pesquisadoras de diversas origens étnicas e áreas de atuação. Este núcleo se propõe a celebrar a força das mulheres, especialmente as indígenas, ressaltando que a resposta para as violências que enfrentamos deve vir de nós mesmas: mães, filhas e mulheres. Conhecer suas histórias é essencial para fortalecer o respeito e a dignidade feminina na sociedade, além de reconhecer a contribuição das mulheres para o avanço da ciência.
